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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Sorria*
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sábado, 19 de dezembro de 2009
A Morte da Bezerra*
Coisa de quem vai chegar na velhice e dizer, satisfeito: "Passei a vida inteira pensando na morte da bezerra."
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Burocracia É Deus*
me manda um anjo
com certificado de divindade
comprovante de residência no céu
e recibo de oferendas recebidas.
Ó, deus da burocracia
me manda este anjo
para ser meu fiador
e permitir que eu siga
por suas segundas vias tortas.
Despacha um santo com urgência
para resolver este meu ofício
se possível até o dia trinta
não abandona esta humilde pessoa física
Ó, grande deus da burocracia.
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Incômodo*
digam para onde devem ir
inventem a vacina contra o desejo
a pílula da conformidade
a lei de como amar.
Já viram deus,
mas nunca a liberdade
animal selvagem
mostrando os dentes.
Há de ser regra a constância
não mais a contradição
daí então não haverá mais humano
imperfeito, falho, vacilante
meio divino, meio animal
boca, sexo, estômago
consciência e carne.
Não haverá mais conflito
nem vida, nem paixão
apenas mundo, controle
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Histórinha de Dormir*
Era pequeno e já trabalhava. Passava o dia inteiro vendendo sorvete.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Enfezado*
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
O Quinto Dia Útil*
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Nuvens*
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Tatuagem no Pulso*
perfuram a pele dos pensamentos
e a tinta misturada com sangue
descreve no pulso
a tatuagem indelével
a palavra em grego
que não deve jamais
ser esquecida:
SILÊNCIO.
Tatuagem no pulso
para ver sempre
lembrar a todo momento
do mais sublime ensinamento
dogma, obsessão
verdade, convicção:
SILÊNCIO.
Gravado na pele
certeza de tranquilidade
prática sutil da morte em vida
lugar comum de toda sabedoria:
SILÊNCIO.
O fim monótono da existência
a ausência do verbo
do erro e do ego:
SILÊNCIO.
Vontade íntima
constante e exposta
tatuada no pulso
gravada na pele.
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Como Me Tornei um Babaca*
Um babaca nada mais é do que uma espécie de louco que não foi excluído e permanece incomodando os indivíduos normais da sociedade. Para ser um babaca você precisa irritar as pessoas, ser inconveniente, chato, e sobretudo não falar a mesma língua que elas, não compartilhar dos mesmos assuntos, soltar frases aparaentemente desconexas, com sentidos de outro mundo, ou ficar em silêncio e ser um babaca do tipo autista ou arrogante.
Para a maioria não é fácil carregar o peso de um título tão distinto, que exige constante apereiçoamento na arte de ser mal quisto, mas o dom geralmente é superior às adversidades e tentativas de se fazer aceitar e levar uma vida normal junto de pessoas normais. O verdadeiro babaca sempre consegue dar um jeito de estragar tudo e causar aquele precioso desconforto geral por onde quer que passe.
Se você também se acha com vocações para ser considerado um autêntico babaca; se muitos já fizeram o favor de te dizer isso, ainda que nas entrelinhas, não se intimide com essa responsabilidade. Para quem carrega o dom de ser um babaca, nunca é preciso muito esforço.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Nem Tudo*
Por isso tenho sangrado tanto
O amor é a janela aberta
Por onde entra o ladrão
Não me mostre o espinho
Deixa eu adivinhar
Quando alcançar a rosa
Tudo é tão belo
Nesse imenso jardim
Mas nem tudo se colhe
Nem tudo se beija
Pois tudo acontece
E não se sabe o sabor
Só se conhece o espinho
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Mais Leve Que o Ar*
Mas deixa um caminho
Para eu sair
E me sentir sozinho
Quando eu estiver distante
Voltar chorando
Como criança perdida
Você vai se lembrar de mim
Quando tudo acabar
Quando tudo chegar ao fim
Ele não soube escapar
Será tão triste
Como sempre é
Depois só passado
Mas até lá
O quanto custa
Estar soterrado
Por algo mais leve que o ar
Sem nunca saber
Porque tudo é assim
Sem precisar ser
Tão pesado
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A Arte da Tristeza*
Passeando pelos corredores e prateleiras, empurrando seu carrinho, sossegadamente, estica o braço, alcança um macarrão, molho de tomate, anda mais um pouco, precisa de pasta de dente, sabonete - e umas cervejinhas também, para relaxar em casa no final do dia.
Já no caminho do caixa, dá uma olhadinha na seção de entretenimento, que além de cd's, dvd's, tem livros também: receitas de comida, Sêneca, Ovídio, como se tornar muitas coisas, best-sellers em geral; mas um livro por acaso chamou sua atenção. O título era "A Arte da Tristeza". Começou a folhear as páginas e encontrou algumas frases, do tipo: "A tristeza, quando é um sentimento puro, livre de raiva e frustrações, pode trazer muita calma e tranquilidade; A felicidade é tão inocente! Frágil e iludida, como um adolescente; A lânguida tristeza é o estado de paz mais próximo da verdadeira serenidade."
Interessante. Quem sabe com uma dessas frases não poderia justificar para si mesmo, ou para alguém que o interpelasse, aqueles momentos que, sem nenhum motivo aparente, tinha vontade de ficar sozinho, em silêncio.
Resolveu levar o livreto. Sentiu vontade de mostrar para a esposa. E afinal de contas, era tão baratinho! Jogou ele entre os outros itens do carrinho, e antes de ir embora ainda deu uma olhadinha na seção de eletrodomésticos.
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Um Dia na Vida*
No café já se começa a processar as tarefas, pessoas, eventos, pensamentos, lembranças, sentimentos - movimento de consciência espontâneo, versátil, volúvel e volátil, que arrasta, muitas vezes com violência, a canoa da imaginação até distantes e estranhas margens. Surgem também as primeiras pessoas, presenças vultuosas, emitindo sons e significados mecânicos - esboço de alguma humanidade.
Uma vez de pé, e em plena atividade, perde-se de vista, por muito tempo, o fio de consciência que sozinho se aventura no imenso mar das sensações. Vez ou outra, encontra alguma ilha no caminho, procura sinais de vida, deleita-se quando encontra correspondência, mas de novo é levada pelas ondas. Metáforas. Como se os sentimentos fossem partículas de gás brilhante que tendem a se expandir infinitamente mas encontram as paredes do corpo: efluvescência.
Mais um dia na vida terá se passado, mais um oceano de sentimentos terá se perdido, ou se transformado em poeira invisível, inexplicável, enquanto tudo continuará funcionando fria e perfeitamente: nada terá sido, nem compreendido, nem comunicado.
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sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Nirvana*
"Quanta experiência se pôde acumular? Quanto do mundo e de si mesmo foi possível aprender?" Eram pensamentos que existiam fora de seu corpo. Naquele momento, o que o preenchia não era senão uma torrente de sentimentos, como ondas de luz a percorrer toda sua extensão interior. Seu olhar não era de felicidade. Uma expressão de lânguida e comovida tristeza estava prestes a precipitar em sua face. "Tanto amor..."
A luz do dia invadia a casa e sua luminosidade ofuscante abraçava e envolvia todos os objetos que ali haviam. De pé, erguendo diante dos seus olhos uma fotografia presa entre os dedos, o universo aos poucos assumia a consistência de um silêncio infinito - "Tanto amor..." - do qual emergia, crescente, um coral uníssono, que lentamente ia dissolvendo todas as impressões e lembranças enraizadas naquele olhar imóvel. Tudo transformara-se em um movimento estático, vibração contínua, onde palavras não passariam de uma descrição vazia sobre o nada.
"Qual é a matéria do sentimento? O que acontece quando tudo acaba? Restará um último sorriso?" Mas o corpo continuava ali. As mãos continuavam ali. Os olhos permaneciam fixos, imperturbáveis, como a contemplar a flor mais linda do mundo. Quanto tempo terá se passado, na medida em que essa imagem se torna cada vez mais distante, mais calma e mais difusa, até se perder completamente no azul?
Afinal, quais terão sido as sensações extremas desta experiência única? O que dela irá permanecer? São perguntas que, como naquele momento, nunca terão existido; e que nunca poderão ser compreendidas, como todo o sentimento disperso no universo.
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Tom Noturno*
Passeando os olhos pelo salão, ao ritmo da música conduzida por mãos maliciosas, não é difícil deparar-se com olhares que prometem o que nunca cumprirão; o movimento de línguas sobre os lábios pronunciam imperceptíveis palavras e desejos obscenos, que só o pensamento mais honesto e altruísta saberá interpretar - afinal, é preciso levar felicidade e prazer a quem os pedem.
Do lado de fora, as ruas silenciosas espreitam com suas luzes amarelas. As conversas que se misturam ao som dos instrumentos trazem em suas letras sempre a variação de uma paixão, a fim de seduzir e encontrar a satisfação. Todos que estão neste salão o sabem, e por isso dançam com prazer, erguem seus drinks no balcão, tocam suas pernas sob a mesa e insinuam a volúpia em cada um de seus movimentos.
Mas nenhuma promessa feita em uma dessas horas mortas pode ser, de fato, esquecida. A não ser que os corpos apaguem o fogo que o olhar, com sua intensidade, fez surgir. Só assim haverá sentido e harmonia no salão, que em sua penumbra, zela com alegria os corpos e promessas feitas, na noite que termina em jazz.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
A Padroeira de Massaranduba*
A pista era estreita, mas também não era das mais esburacadas, cortando vales com vilarejos lá embaixo, por onde rios corriam feito crianças a brincar em volta das casas. O carro pegou a saída para uma estrada de terra, que alguns metros mais além tornou-se intransponível: diversas crateras e um lago bem acomodado no meio dela. Não era mais possível chegar a grande pedra no alto dos vales (como premio de consolação, foi oferecido um curioso treinamento de bois, cavalos e vacas para competição).
De volta a via principal, por imperativo da inércia que pairava sobre o grupo em movimento, ficou decidido seguir sem saber exatamente aonde se ia dar. Ninguém reparou na pequena placa que mostrava o nome da cidade.
Depois de quase recuar frente a outro obstáculo, desta vez em forma de policial, como que cobrando esse descaso com o próprio destino, mais alguns quilômetros por entre os amistosos campos de vales e rios levaram ao fortuito município de Massaranduba.
Um movimento comportado murmurava pela cidade, algumas pessoas vestiam uma camisa igual, muitas de branco, o palanque testava o som e um imenso escorregador inflável erguia-se na praça: era a festa da padroeira. Mas como ela provavelmente só apareceria mais tarde, o tempo foi suficiente apenas para conhecer o simpático senhor dono do boteco.
Na estrada de volta, uma extensa fileira de luzes de carros parados e fogos de artifício anunciavam a aparição da santa. Pouco tempo depois, estavam novamente à cidade de onde partiram.
Assim foi a breve viagem. O final dela não leva, certamente, a uma elevada e edificante conclusão, embora conte com a aparição de uma santa; tampouco ao alto de uma colina onde se assistiria ao pôr do sol - a não ser que sejam válidas as modéstas alturas de um escorregador inflável, com vista privilegiada para um palanque -, mas talvez, como premio de consolação, seja o bastante para desfrutar de um rápido momento de distração, em meio a bois, vacas, vales e rios.
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Release: El Coiote*
Uma vez em São Paulo, desde 2005, continuou seu trabalho com a música, agora em um estúdio de ensaios, localizado na Teodoro Sampaio - não por acaso, a avenida com maior concentração de músicos e lojas de instrumentos da capital - e assim, sempre envolvido dos pés a cabeça no universo sonoro, prosseguiu ampliando sua experiência e participando de novos projetos. Foi integrante de bandas conhecidas no cenário underground de São Paulo, como Sagitta, Distort, Mister Lúdico e os Morféticos, e com algumas lançou LP's, demos e outros trabalhos independentes. Em 2008, foi o baterista da turnê com o Viper, banda de renome internacional, e atualmente toca com o Circo Motel.
Neste novo projeto solo, Coiote mais uma vez investe o peso e energia da sua batera em outra vertente do rock, mas desta vez assume, além das baquetas, o vocal e a guitarra. Em Sete Chaves e Eu Sei o Que Você Quer, as duas primeiras músicas lançadas no MySpace, foi responsável não só pela composição, mas também pela captação, produção, mixagem e masterização das faixas, nas quais ainda contou com a colaboração de Marquinhos Du na gravação de algumas guitarras e Rafael Guedes no baixo e sintetizadores.
Vagando solitário pelo deserto, ou quebrando tudo no cenário underground paulistano, o Coiote segue desbravando sua trilha musical, mostrando toda sua garra, rock'n'roll e diversão: oh yeah!
Confira o som do Coiote no MySpace: www.myspace.com/elcoiote
(Release by Bité*)
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quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Crescente*
A lua aí
também sorriu?
Você foi ver
te fez lembrar?
Sabe o quê:
vontade minha
carinho seu
saudade sua
presente meu.
II
No céu, entre nós
nasce outra vez
a terna promessa
e o mesmo sorriso.
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Caixa de Sapato*
Seguem dali até o boteco no próximo quarteirão. Entre a multidão que atravessa a faixa, os dois parecem ser os únicos a estarem sendo agredidos pela luz do dia. "Dois pf's." O cafézinho é grátis. Café da manhã e almoço, daqui a duas horas começa o trampo, ainda dá tempo de voltar pra fumar e ouvir um som.
Oito horas de labuta - e alguma bagunça - depois, o ordenado do dia ainda dá pra fazer um lanche, mas não sobra muito pra sair ou fazer qualquer outra coisa, portanto, só resta voltar àquela caixa de sapato perdida no meio da cidade, encrustrada entre outros cubículos, povoada de criaturas do submundo tentando sobreviver no meio urbano.
Mas a vida ordinária também tem seus requintes. Estando entre amigos, se pode desfrutar de toda liberdade possível dentro de um espaço reduzido e uma rotina menos comum, mas igualmente pesada. Diversão também faz parte da sobrevivência. O som e a fumaça vão continuar rolando a noite inteira, embalando alguma loucura e muitas risadas, outros vão chegar, interagir, até quase amanhecer de novo - só na juventude a vida parece poder ser consumida e queimada diariamente, para depois ressurgir das cinzas, com a cara amassada, os olhos esbugalhados e a voz rouca, mas ainda de pé e respirando.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Meia Luz*
Os lábios úmidos, o brilho de seus olhos na penumbra - o traço escuro que na horizontal deixava adivinhar sua boca entreaberta. Bebeu mais um gole de vinho, olhou para as luzes que vinham de fora, mexeu no cabelo, levando algum tempo para que respondesse a pergunta.
"Talvez nós dois estejamos entre o céu e o clichê." Mais vinho. "Mas o que poderia ser assim tão interessante?" Ao dizer isso, inclinou levemente o ombro esquerdo, deixando cair a alça de sua blusa. Jogou a cabeça para trás, soltando o longo cabelo. Seu seio ficara suficientemente exposto.
"Tens razão, o real interesse está sempre no desejo." No chão onde estavam, de frente para a mulher que agora movia os ombros ao som da música tocando, provavelmente de olhos fechados, não teve certeza se havia de fato pronunciado aquelas palavras e fitou mais uma vez a delicada linha que delineava a curva entre o pescoço e o ombro, sem perceber que sua mão já quase tocava os fios do cabelo solto que pendiam de sua nuca.
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Brejo Bonito*
Lugar que eu nunca vi
Tem lagoa pra banho
Quanto morro pra subir
Montanhas tão rochosas
Sobe e desce de colinas
A vaca já foi pro brejo
Pois eu também quero, amor
Lá tem árvore ainda
Tanto tipo tão diverso
No verde pasto tão bonito
Brilha um brejo nunca visto
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quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Menos Energia*
A religiosidade moderna incorporou no seu modo de ver as coisas o novo misticismo da chamada Nova Era - que é, basicamente, o "resultado espiritual" da miscelânea cultural do século XX -, de modo que hoje em dia somos todos uma espécie de receptor místico, transcendental e espiritual, que circula por aí trocando e recebendo energias, com informações tão ricas que é possível até saber o que a pessoa comeu no almoço (ou será nosso olfato trabalhando sem que percebamos?).
Tá lá, pode pegar qualquer livro de sociologia que passe pelo tema para encontrar o desenvolvimento energético da nossa alma. Mas, além da sociologia, outras disciplinas podem dissolver um pouco mais essas influências (termo esse, inclusive, que nasceu em nosso vocabulário junto com estas visões de mundo) místicas. Peguemos a semiótica (ciência que estuda a construção dos significados), ou qualquer outro tratado que lide com a percepção e cognição humana, para que a gente entenda melhor como funciona o nosso jeito de perceber as coisas e pessoas.
Mas ninguém vai ter saco de ler um livro inteiro só pra isso, então é muito mais fácil chamar de energia o que acontece e a gente não sabe explicar; por isso essa coisa de energia é mais o caso de uma preguiça do nosso entendimento, que aliada a mania de superstição, vira uma realidade. Chega a ser até uma irresponsabilidade, sair por aí espalhando impunemente o que nem se teve o trabalho de tentar entender, pois, em todo o caso, vale a regra, "afirmar é preciso, saber não é".
As pessoas têm um negócio chamado intuição. Nossos sentidos estão aí, alertas a qualquer movimento, a todos os símbolos, mesmo quando achamos não estar prestando atenção, capturando uma infinidade de estímulos (imagine-se naquelas avenidas de Tóquio completamente dominadas por anúncios luminosos), percebendo uma série de coisas, sem que a gente normalmente se dê conta; em outras palavras, nossos sentidos, visão, olfato etc., estão, involuntariamente, trabalhando o tempo todo. Mas a maioria desses estímulos não chegam ao nosso grandioso entendimento, ou seja, não tomamos consciência de tudo o que acontece, caso contrário sofreríamos uma sobrecarga, um colapso mental (a menos que passemos a usar mais o potencial do nosso cérebro, talvez), e sairíamos correndo surtados pelas ruas - um caso parecido com o fenômeno da information overload, o excesso de informação que nos deixa num estado meio catatônico, sem saber direito o que fazer com tanta informação.
É aí que entra nossa intuição, pois ela é o primeiro estágio do nosso entendimento: o que não se torna compreensível à nossa mente consciente permanece como informação inconsciente, sob a forma de intuição.
O esquema é mais ou menos o seguinte: nossos sentidos capturam os estímulos, que podem ou não virar um conhecimento, algo que a gente possa falar: "Ei, isso existe e é assim". Resumindo, a intuição é a informação que não virou entendimento, permanecendo apenas como estímulo sensorial.
Mas o que isso tudo tem mesmo a ver com a energia mística? Vamos dramatizar uma situação: beltrano chega numa praia, seus sentidos capturam o azul turquesa do mar, a brisa refrescante que sopra em seus cabelos, a luz do sol que traz calor ao seu corpo, e diz: "Esse lugar tem uma energia tão boa". É óbvio! O sujeito esteve sendo intensamente estimulado o tempo todo, mas não ia estragar todo o clima paradisíaco elencando e descrevendo suas percepções, que não foram conscientes e permaneceram apenas como sensações gostosas. É a mesma coisa que encontrar um desafeto na balada, de cara fechada, frases nervosas e provocativas, braços cruzados, ar de desprezo e soltar: " Ai, que energia negativa dessa menina".
Chamamos de energia os símbolos, significados, que, por qualquer motivo, não podemos explicar. Estamos interpretando coisas o tempo todo, só que geralmente não percebemos isso.
O ser humano se define por sua capacide de atribuir significado às coisas e constituir uma linguagem a partir disso. A música e o insenso "energizam" os lugares porque são estímulos agradáveis à nossa percepção. O que existe, então, não é a energia, mas sim o ato, o estímulo e a percepção. Pensamentos positivos atraem coisas positivas na medida em que determinam nossos atos e esses passam a ter uma significação positiva, o que proporciona maiores chances da percepção destes terem uma recepção, ou interpretação, igualmente positivas de quem as recebe. Inferimos conteúdos que não foram ditos. Interpretamos o que comemos, o que vestimos - significamos até quando não queremos significar nada.
Pode-se, inclusive, dizer que esse é um dos traços do que atualmente se chama de economia de trocas simbólicas, graças ao valor que o significado, a representação e o símbolo, por si só possuem. Um exemplo disso é que muito dificilmente alguém irá carregar consigo todo o dinheiro que possui; basta que sua conta no banco mostre um valor numérico na tela e que este seja simbolicamente transferido para outro lugar, não havendo necessidade de se transportar materialmente centavo por centavo: o que vale é o valor simbólico.
A energia é um recurso cada vez mais escasso em nosso planeta. Não devemos, portanto, consumi-la inconsequentemente para satisfazer nossas necessidades místicas. Então, antes de dizer que sentiu uma "energia estranha", que tal parar um pouco e prestar mais atenção nos estímulos que estão acontecendo ao seu redor; para isso, é preciso deixar a preguiça de lado e se esforçar para compreender os símbolos e significados que se escondem diante do nosso nariz: "as coisas conversam coisas surpreendentes..."
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Observatório*
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Intragável*
Ela, por sua vez, recebe o telefone de uma amiga; em dez minutos está pronta. Liga para chamar o amigo, mas ninguém atende. As duas saem, encontram outras pessoas, até conversam sobre o caso do rapaz: - Mas isso é fase, eu também já passei por uma dessas; tem que aguentar firme e pensar positivo, aí logo as coisas melhoram. E a turma segue noite adentro, rindo das histórias que a moça contava.
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sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Olhos Abertos*
Para os olhos escondidos atrás dos óculos, no entanto, não existia amores platônicos, impossíveis - todas as formas eram capturadas e as texturas, consumidas, voraz e visualmente. Por mais distantes e inacessíveis que fossem durante o dia, nenhuma curva inocente dos caminhos percorridos deixaria de ser contemplada pela fome de seus sentidos.
- "Para que tantas pernas, meu deus, pergunta meu coração. Porém, meus olhos não perguntam nada..."
À noite, já passava da hora em que habitualmente dormia, estava deitado, mas seus pés se agitavam nervosamente, no ritmo dissonante em que sua mente lhe exibia uma confusão de cenas desconexas, lembranças, acontecimentos do dia, temores, expectativas: um indecifrável emaranhado de significados. A chuva branda que caía do lado de fora, vibrando um chiado tão propício a uma boa noite de descanso, contrastava com os movimentos inquietos do seu corpo, rolando de um lado para o outro da cama.
Abria os olhos, como uma pessoa que está se afogando e busca desesperada por ar, mas a escuridão do quarto também funciona como pano de fundo para os devaneios que não o deixam dormir. Seu pensamento continuava acelerado. Experimentou deixar que as imagens fluíssem sem tentar impedir, controlar ou compreender seu encadeamento frenético. Nenhum resultado. Não houve outro meio se não render-se, às imagens que o instigavam à volúpia e à vígilia, e ao tempo, o único capaz de lhe trazer o sono.
Acordou com a estranha sensação de que permanecera a noite inteira com os olhos abertos.
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terça-feira, 18 de agosto de 2009
A Primeira Vez*
Depois de pelo menos quatro garrafas, o diálogo já se encaminhava naturalmente, com maior liberdade e espaço para um humor agradável, consumando a alegre afinidade do casal e permitindo trocas de carinho cada vez mais conscientes.
Contudo, num dado momento em que muitos assuntos haviam se esgotado, ao invés dos sorrisos espontâneos, emergiu de suas bocas desejosas um intervalo de conveniente silêncio. Fixaram seus olhares, com a deliciosa curiosidade de quem busca descobrir no outro um pouco mais dessa pessoa estranha e fascinante, através do encantamento que acontece na presença de alguém que se admira - na ausência de palavras.
Ela notou em sua expressão o que achou ser um pouco de tristeza. Talvez ele já estivesse cansado e quisesse ir para casa. (Teria se cansado dela?) Perguntou: "Tudo bem? De repente você ficou com um olhar tão triste... Aconteceu alguma coisa?" "Não, nada", respondeu ele com um leve sorriso.
Lembrou-se da primeira vez em que lhe haviam feito aquela pergunta. Estava deitado em sua cama, sem fazer nada, apenas olhando para o teto. Não tivera aula aquele dia, por causa de algum feriado, e embora não soubesse nada do que sentia, provavelmente estava triste porque não veria a menina de sua sala, por quem alimentava um amor ainda totalmente inexperiente. Seu pai, quando o viu no quarto, quieto e sozinho, aproximou-se e perguntou: "Tudo bem, filho? Você está triste com alguma coisa?" E ele, do mesmo jeito, havia respondido: "Não, nada..."
A bonita mulher, que tão cordialmente continuava o observando, não poderia desvendar nele esse olhar que trazia a marca do que talvez tenha sido o desabrochar do amor em seu peito, e também de sua primeira tristeza, sem saber que tudo o que aconteceria depois em sua vida afetiva seria uma variação desse olhar.
Enternecido por ela, que o fitava ansiosa e que acabara de reconhecer em seu semblante aquele dia escondido no passado, pegou-lhe as mãos, sugeriu que ficassem mais um pouco e convidou-a para que se encontrassem outras vezes.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
A Última das Horas*
Toca o celular: "Oi, amor. Na rua. Não, não demoro. Beijo."
A música volta a penetrar por seus ouvidos, calando o intenso ruído do mundo lá fora, misturando-se a vagos pensamentos disformes, sobre a mulher, a vida, o trabalho, evocando lembranças interrompidas continuamente por vozes, imagens, e fazendo com que tudo se condense em um anestesiante estado de distração.
Olha o relógio - está atrasado -, enquanto um leve tumulto passa desapercebido do outro lado da rua. É tudo muito rápido. De repente, simplesmente deixa de existir. Pessoas começam a correr, assustadas. Alguns minutos depois, aglomeram-se curiosos, gritos surgem pedindo socorro, um homem foi gravemente ferido, parece estar morto, deve ter sido baleado, atiraram do outro lado da rua, assaltaram uma loja de roupas.
A ambulância demora, as pessoas voltam a caminhar nervosas pelas calçadas, o ruído que por um instante cessou volta a sua intensidade normal, os médicos chegam, examinam o corpo, é tarde demais, não houve chance, morreu na hora, o tiro atravessou um órgão vital, não deve ter sentido dor, talvez nem tenha percebido que morreu, fulminante do jeito que foi, não dá tempo nem de lembrar que um dia esteve vivo.
No restaurante a três quadras dali, uma mulher espera em vão por seu marido.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009
O Vaso*
Há pouco, havia comprado um vaso para receber mais uma companheira e o posto na varanda, ao lado de seu querido morangueiro. Era preciso conseguir tempo, tempo para morangos, flores e vasos vazios.
Dias depois, passando pela feira no caminho de seu trabalho, reparou numa senhora que naquela manhã ocupava um pequeno espaço entre as barracas, expondo uma única flor sobre um pano branco estendido no chão.
"Bom dia, senhora. Sua flor é muito bonita. Estranho nunca ter visto a senhora vendendo flores por aqui."
"Estou sempre de passagem, meu filho. Vez ou outra, quando nasce uma flor no meu quintal, trago ela para enfeitar a vista das pessoas."
Infelizmente, ele não poderia levar consigo a vistosa flor da senhora. Quem sabe mais tarde, quando estivesse a caminho de casa. Lamentou-se, explicou à mulher e partiu, vendo em seu rosto um terno e inquietante sorriso.
Saiu afoito do trabalho em direção à feira, ansioso por encontrar o pano branco estendido no chão, mas a senhora não estava mais lá - havia levado sua flor embora, ou entregue a um estranho.
Chegando em casa, suas pernas o levaram espontaneamente à varanda, para aproveitar os últimos raios de luz do dia junto de seu morangueiro. Sentou-se no chão, um pouco inquieto, e encostou suas costas e cabeça na parede, olhando para o vaso vazio na sua frente. Fechou os olhos, ternamente, respirou fundo e deixou escapar o ar.
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quinta-feira, 23 de julho de 2009
Fluxo*
que ora avança, ora recua
calma ou bravia
levando a espuma branca
trazendo troncos
algas, peixes afogados.
A ideia reconhece em si a maré
que ora avança, ora recua
calma ou bravia
levando pensamentos brandos
trazendo triste
palavras, do peito cansado.
A maré não ouve nem vê a ideia
que ora avança, ora recua
quebrando o silêncio
com seu rugido grave.
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terça-feira, 7 de julho de 2009
Banho Quente*
E assim foi. Mas enquanto esteve em seu apartamento - pequeno, mas bem aparelhado, conseguido a duras penas - não lhe faltou tempo para se admirar. Sua vida era exatamente como imaginava que seria quando ainda estava na faculdade.
Tomou seu relaxante banho quente, arrumou-se com suas melhores roupas e saiu. Divertiu-se horrores naquela noite. E no resto do fim de semana ainda encontrou tempo para pôr em ordem o que precisaria fazer durante a semana.
E então, de novo a segunda, o trabalho, o trânsito, a correria - mas nada que com sua energia e vocação não fosse conseguir se sair bem, pois naquele momento só havia uma coisa capaz de lhe causar um verdadeiro incômodo: a mania de piscar viciosamente o olho esquerdo quando não conseguia controlar muito bem seu nervosismo. Cada vez mais frequentemente vinha apresentando esse tique. No entanto, resolveu não dar muita atenção; seria, provavelmente, apenas o resultado de um estresse passageiro - que logo se juntou a uma preocupação e ansiedade constantes.
Um banho quente, era tudo o que precisava. A hipótese de mudar seu estilo de vida e de alguma maneira se distanciar do que havia planejado para si era impensável. Tornou-se uma pessoa explosiva. Irritava-se por qualquer coisa. Suas relações baseavam-se em pequenas, ou grandes, agressões, o que não impediu que conhecesse alguém e com esse alguém se casasse. Teve filhos - e a explosão continuou, causando pequenos, ou grandes, ferimentos em todos aqueles que se aproximavam.
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domingo, 5 de julho de 2009
Aniversário*
O último período no colégio acabara há pouco e à sua frente o futuro era indefinido como uma névoa intransponível. Sentia-se perdido nela, chorando como um menino.
Durante o dia, essa névoa se estendia por seus movimentos incertos, aos quais não conseguia dar um objetivo que o alegrasse de fato.
Esperar que alguma coisa de repente surgisse no caminho e alterasse sua falta de rumo dividia sua cabeça com anseios de fazer qualquer coisa, como viajar, arranjar uma namorada, conseguir um trabalho, comprar um carro. Mas tudo isso era muito fácil de imaginar e difícil de pôr em prática, como ele sabia muito bem, nada cairia do céu.
O que fazer? Era essa a pergunta que o aturdia a ponto de muitas vezes não o deixar simplesmente sair da cama. E se nada acontecesse? Outro aniversário chegaria, mas nada teria mudado, nada o teria completado, ninguém haveria estendido a mão que o levaria de volta ao tempo das tardes de futebol na rua, das promessas de beijo que havia no rosto das meninas da escola, dos sonhos que se realizariam...
Mas nunca se pode saber o que vai acontecer em nossas vidas - desde que aconteça. Pode ser de um dia se topar numa pedra e urrarmos de dor. Pode ser de numa esquina se cruzar um olhar e tudo passar a fazer sentido. Pode acontecer de no futuro a gente olhar para o passado e sorrir.
O relógio marcava a hora de levantar. Arrumou-se, saiu de casa e colocou-se a caminhar, mas dessa vez sem pensar muito no que seria do seu dia. Um passo veio atrás do outro. A única coisa importante era que faria o que tinha de fazer naquele momento: pegar o ônibus, entregar os documentos que sua mãe havia lhe pedido, depois voltar e encontrar com seus amigos.
Já perto de seu destino, dobrou a esquina do quarteirão e não viu a notável pedra que repousava bem diante de seu nariz. Topou nela tão violentamente que desequilibrou-se e não conseguiu conter um terrível grito de dor, traduzido pelo palavreado: "Puta merda!!!"
Das pessoas que estavam próximas, algumas riram, outras se assustaram com o grito, mas houve também aquelas que vieram lhe estender a mão. E uma delas, cordialmente, lhe disse: "Acontece".
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Os Outros*
Até agora havia enfrentado dignamente os trabalhos e os dias ao longo das diversas funções que ocupara em sua vida - mas durante todo esse tempo não conseguira eliminar ainda aquele germe insatisfeito que o obrigava a desejar uma ruptura substancial com um modelo de vida que considerava tradicional e banal demais.
Saiu do escritório e entrou no carro, direto para casa.
No caminho, a idéia de abandonar a cidade e morar em qualquer fim de mundo o sufocava. E a sua família, mulher e filhos? Não, eles não eram o problema; o apoiariam por mais incompreensíveis e penosas que fossem suas vontades. Dinheiro para essa mudança radical também havia o suficiente.
Olhou pela janela do carro e avistou um bar fuleiro na beira da estrada; decidiu parar. Sentou-se num canto do balcão, pediu uma cerveja e olhou para os gatos pingados de rua que acompanhavam um jogo pela tv.
"Largar tudo, ser um ninguém; viver de feijão e farinha, no meio do nada, como bichos, longe dos amigos, sem os eventos que não gostava de ir, sem as facilidades da vida moderna", e principalmente: no verdadeiro isolamento. A vida sendo realmente vivida em sua insignificante, mas preciosa, simplicidade; em sua indiferença como pessoa do mundo, da história; em sua quase inexistência para os outros.
Os outros. Com os quais sempre teve a necessidade de mediação e relacionamento regulados, com receio, cuidado - e carinho.
Seria realmente capaz dessa ruptura? Não, pois não teria mais quarenta anos pela frente para realizá-la - enquanto o germe do ideal insatisfeito irá permanecer, paciente e silenciosamente, corroendo seu interior até que com ele seja enterrado, para depois seguir seu caminho pela terra fértil...
Resignando-se, matou sua cerveja e sorrindo perguntou aos homens: "Quanto tá o jogo?"
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sábado, 4 de julho de 2009
A Festa*
O clima era aconchegante e devidamente alegre. A música e o murmúrio preenchiam o lugar por onde se confinavam pequenos grupos de pessoas.
Acompanhou-se de uma bebida e quando necessário participava da conversa de seus amigos. Tinha a irrelevante preocupação de estruturar suas frases de maneira que não fossem vazias ou inconvenientemente profundas demais - afinal, era uma festa e não um debate acadêmico. Esse trabalho o cansava facilmente, e logo se perdia num olhar distante, que não tão inconscientemente procurava por qualquer espécie de epifania mundana. Quem sabe um olhar intrigante? Uma atração...
Nada. Multiplicavam-se trivialidades e sorrisos fáticos. Melhor assim. Definitivamente, não há lugar em uma festa para a misantropia e a distimia alheia - talvez, nem fosse mesmo o caso de assumir este auto-diagnóstico para si. Porquê simplesmente não inspirar a leveza leviana e expirar cordialidade?
Porque sim, um homem se torna aquilo que é.
Porque não, o silêncio não precisa doer tanto.
A festa continua. A bebida e a música trouxeram a distração e distante de todos havia um par de vasos de flores. Talvez fossem uma epifania, talvez fossem um refúgio. Eram lindas - e a beleza tem o poder natural de confortar e comover. Lindas e solitárias, como que esperando a companhia e o calor do olhar de alguém.
Depois desse encontro, a festa acabou.
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sexta-feira, 26 de junho de 2009
Diálogos*
Platão tem uma perna cruzada sobre a outra e toma cerveja num copo americano. Seu aspecto de estátua é levemente grave; veste a indumentária clássica e é todo pálido como mármore desgastado pelo tempo.
Buda deixa seu cigarro repousado em cima de um cinzeiro; tem estampado em seu rosto um sorriso de serenidade e as duas pernas estão cruzadas sobre a cadeira, em sua postura habitual. Seu corpo é dourado e suas vestes coloridas.
Não conversam muito. Mas é possível perceber que gostam da companhia um do outro e que compartilham uma sutil e silenciosa concordância.
- "Pois é..."
- "Será que chove?"
E assim os dois passam juntos os finais de tarde da eternidade, tranquilamente, a contemplar a vida sentados em uma mesa de bar.
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domingo, 14 de junho de 2009
Quando Chegar a Hora*
Respirar fundo e correr as paredes...
Abrir as janelas, sair na varanda
Fechar os olhos e voltar para dentro...
Te abraçar a cintura, dançar em silêncio
Girando na sala, à luz da tarde...
Desfazer as malas, arrumar os cantos
Descansar as pernas de andar por aí...
Regular o sono, perder as olheiras
Acordar logo cedo e ganhar um beijo...
Viver o presente, acalmar o corpo
Cuidar de fazer e seguir adiante...
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quarta-feira, 3 de junho de 2009
Expansão*
e não obedecer ao que vem de fora
Por um momento
estar completamente envolvido
por uma visão
como um selvagem nu
que se confunde com o céu azul
Acontece de ser uma súbita expansão
sem limite compreensível
O que foi se não leve existência
emocionada e comovida
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terça-feira, 2 de junho de 2009
O Brasil da Copa*
E em se tratando de economia, muitos, assim como eu, já devem estar pensando em poupar um dinheirinho para assistir aos jogos. Deixar de sair no final de semana: "não posso, tô economizando pra copa". Afinal, supondo que a moeda continue a mesma e o capitalismo não tenha sofrido o colapso definitivo, os valores até lá terão sofrido alguns reajustes. Por exemplo: com um bolacha Passatempo custando sete reais e quarenta centavos e uma passagem de ônibus a três e trinta, provavelmente um ingresso não sairá por menos de seiscentos reais e uma camisa da seleção poderá chegar a custar bem uns duzentos e cinquenta reais. Ou seja, uma fortuna! Pelo menos nos tempos de hoje. De qualquer forma, é bom começar a guardar, nem que seja por apenas noventa minutos, mas talvez cheguemos a um estádio sem precisar pegar um ônibus lotado com cento e dezessete pessoas gritando e debatendo-se, depois de horas de fila para comprar um ingresso, e ainda sentar numa boa poltrona, ao invés de se acomodar no humilde e saudoso concretão de outrora, sob o risco de tomar chuvas que não caem só do céu.
A copa é o Brasil do futuro?
terça-feira, 26 de maio de 2009
Chuva na Praia*
não era preciso que o tempo estivesse bom,
não era preciso falar.
Horas de estrada
de olhar perdido
na paisagem
passando
na janela
Ao encontro de não estar
por alguns dias
andar debaixo da chuva
parar debaixo da chuva
E ver em tons de cinza
céu, nuvens, praia
pássaros
silêncio
o mar respirando
uma brisa fria
sob a névoa da chuva fina.
Sombras caminhando na praia
dentro da névoa
debaixo da chuva fina
Sombras paradas em frente ao mar
pensando em silêncio
respirando a chuva fina
Longe de qualquer coisa
do outro cinza
Distantes
em frente ao mar
tons de cinza
névoa
e uma chuva fina.
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sexta-feira, 22 de maio de 2009
2011*
Assim como fomos acostumados a imaginar, também achei que o fim dos tempos aconteceria sob a forma de um terrível apocalipse, com anjos das trevas incendiando o mundo, uma invasão alienígena devastando a terra ou mortos-vivos devorando nossos corpos. No final das contas, a devastação foi a mesma. E poucos restaram, ao menos até aonde minha realidade alcança.
A sede, a fome e a doença são menos apocalípticas do que nossos terrores simbólicos e sempre convivemos harmoniosamente com elas, mas não imaginávamos que seus efeitos simultâneos e em larga escala seriam tão fulminantes. Enquanto ainda havia comunicação, soubemos de um vírus, uma gripe, e que providências já estavam sendo tomadas. Depois continuaram proliferando notícias desencontradas por todos os países, até que o pânico se instaurou após uma população inteira definhar até a morte aos olhos de um planeta aterrorizado. Saques, êxodo, violência, suicídio, tudo em escala global enquanto a doença viajava de avião e acabava de infectar os lugares restantes; a água também fora contaminada, e quem não morria com a doença era vítima de suas consequências. Um colapso. Os mais ricos sobreviviam mais tempo, mas nem por isso podiam escapar - a miséria era agora o sistema dominante. Logo, não tive mais notícias dos meus parentes e amigos; estávamos todos isolados em nosso próprio caos. Os dias eram passados ao abrigo das ruínas que restaram de nossas fortalezas de pedra e concreto. Alguns se juntavam; outros perambulavam sozinhos até sucumbirem ao chão das ruas, até serem varridos de vez pela crescente destruição.
Minha namorada e eu fugíamos e nos protegíamos como era possível. Mas, na verdade, não era possível. Não havia proteção, não havia cura e a salvação era uma ilusão detestável - era uma questão de tempo até que chegasse a nossa vez. Mesmo nos momentos finais de desespero, relutei em procurar pelos grupos que se escondiam e sob os quais recaia o mito da sobrevivência, sendo que na verdade o que queriam era proteger dos flagelados as últimas cotas de riqueza que os restara para viver um pouco mais do que os outros. Nunca tive medo de morrer e optei por esperar a morte com a maior tranquilidade e dignidade possíveis, sem implorar por um momento que sempre tivera o seu final previsto; se tivessem havido zumbis e extra-terrestres, permaneceria até a última bala de uma espingarda, por puro lazer, assim como eu e meu amigo fazíamos nas imaginações de nossa infância; ou no caso de anjos inquisidores, aguardaria o veredicto fatal só pela curiosidade do julgamento. No entanto, essa coragem, que não bastava de descrença, não foi forte o bastante, e tive medo quando a vi morrer. Não pela morte em si e pela solidão que me aguardava, mas pela desolação do amor: angústia, desespero, solidão, falta, todos os sentimentos reunidos como os eventos desastrosos que jogaram na cara dos homens a efemeridade humana. Minha companheira havia partido, como todos os outros que amei, e eu restava só numa vida árida, deserta, odiando a espera que não me permitia estar aonde eu desejava estar.
Foi assim que, provavelmente por um desses castigos sem razão impostos a nossas vidas, durei mais uma dúzia de intermináveis semanas, rejeitado pela doença, até que a terrível secura da sede - a única coisa que se move dentro de mim - me trouxesse essa espécie de luz agonizante e trêmula, que brilha no fundo de um calmo vazio e que me permite lembrar por alguns últimos momentos.
Não sei bem por que, mas muito antes de que essas calamidades surgissem como nosso destino definitivo, nunca consegui fazer projeções de como seria minha vida depois de 2011; e, por coincidência, dessa data em diante não pudemos resistir para assistirmos e celebrarmos juntos a mais uma copa do mundo.
Paciente*
Como então ter paciência, ser paciente, pode ser uma virtude? Como ser passivo e simplesmente esperar que as coisas aconteçam, como um refém, de mãos atadas, que aguarda e sonha com a liberdade - a liberdade das nossas vontades? Nossos dias não permitem que esperemos; tudo acontece ao mesmo tempo e é preciso resolver, agir, fazer, produzir e ser (que, no caso, é ter), agora e não depois. Não há tempo e não há lugar para a paciência. Esperar, de certa forma, seria como prostrar-se diante da realidade e do destino, ou render-se a forças divinas que estão além das possibilidades humanas.
Mas talvez seja justamente esse o princípio que, ironicamente, nos ajude a compreender a paciência: a aceitação. Não necessariamente a aceitação do destino, ou do divino - isso irá depender das convicções de cada um -, mas o esforço e a humildade para aceitar os nossos limites e os limites impostos pelo Tempo.
Esperar costuma não ser fácil, e deixar que a vida se passe num futuro imaginário - esse tempo virtual que não existe, e por isso, é o tempo onde tudo pode ser, geralmente, bom e perfeito -, enquanto nada acontece, pode ser tão tolo como aceitar uma infalível pílula de esperança, e seguir acreditando por acreditar. Esperar não é ter esperança; a esperança é o ato de esperar. Assim como ter paciência não precisa significar ser um paciente no leito do tempo; ter paciência precisa ser o saber esperar: ser um sujeito do tempo, no tempo.
"A inteligência é boa. A paciência é melhor."
domingo, 17 de maio de 2009
Maculário*
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Açude Velho*
Busquei água,
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Caminhada Noturna*
Vésperas de São João*
segunda-feira, 11 de maio de 2009
A Voz do Mar*
terça-feira, 21 de abril de 2009
O Barco*
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Perdendo o Sentido*
O Bem Que Não Fui*
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Sete Anos no Tibet*
terça-feira, 7 de abril de 2009
Limpeza Diária*
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Uma Casa Amarela*
St. Anger*
segunda-feira, 30 de março de 2009
Sub Specie Aeternitatis*
terça-feira, 17 de março de 2009
Communication Breakdown*
E isso também me faz lembrar o quanto somos reféns da linguagem; sabemos que há algo errado, que deveria ser conversado, mas não sabemos o que é e se realmente é, ou como deveria ser falado, comunicado ao outro, e, quando (não) damos conta, já deixamos que o mal-entendido tenha se estabelecido de vez, por preguiça, melindre ou pelo mero prazer da intriga, covardia etc. – o que me faz lembrar o quanto tendemos à ignorância. Raramente temos capacidade e paciência para saber e entender. Do contrário, não seria norma a triste conclusão “Afirmar é preciso, saber não é. Assim age um tolo.”
Mas, beleza, no final a gente se arrepende – quando muito –, e tá tudo certo, enterrado com o resto das coisas que o tempo cuidou de destruir.
Sucata*
Da varanda de onde moro, tenho vista privilegiada para um ferro-velho. Passei algum tempo revirando minhas idéias à procura de um mote-inspiração, mas a única coisa que parecia servir a este fim me levava necessariamente àquela paisagem de sucatas, assim como nos momentos de lazer e/ou de um cigarro, era levado, involuntariamente, a acompanhar o movimento do dia: muitos caminhões, carroças e pessoas trabalhando e comercializando tudo de metal indesejado que se possa imaginar; caçambas transbordando de latas, fardos de papel, garrafas, solas de sapatos e sandálias e chinelos, etc. Só o que não sabia era como transformar tudo isso em algo minimamente relevante, que expressasse qualquer conteúdo meu, por mais bobo que fosse, mas que desse a mim mesmo uma espécie de ombro amigo, me ajudando a sair de um longo e incômodo silêncio, daqueles que não permitem reflexão e parecem mais algum tipo de estagnação mental.
Pensei em discorrer sobre o caos organizado do lugar, ou sobre nossa miséria e o lixo que produzimos e que também é o sustento de outros; ou ainda sobre o humilde e pesado trabalho no meio de tamanho entulho, mas que é tão digno como os demais. Enfim, nenhuma dessas abordagens me agradou e tenho náuseas só de me imaginar fazendo um daqueles discursos rançosos, como os que fazem a televisão, que exploram e nos convencem do heroísmo e felicidade que há na simplicidade da pobreza. Essa falsa humildade vende bem como produto em programas de domingo, mostra ao pobre que poderia ser pior e ao rico que deve estar contente por não estar naquelas condições; e, no final, todos se sentem satisfeitos com sua própria piedade e aliviados – não sem alguma culpa - por acontecer ao outro.
Mas a honesta humildade, que talvez nem mesmo tenham aqueles que vivem de recolher o lixo dos outros – e que, se pudessem, possivelmente seriam mais um a se comover com o espetáculo da tevê -, não a possui quem simplesmente se submete ao trabalho bruto, nem pratica esmola ou dá caridade; nem mesmo quem a considera um valor e a deseja, buscando em meio à bagunça de um ferro-velho – do alto de um apartamento... Essa profunda humildade, que se parece com um dom, ou uma revelação, daquelas que só uma grande doença pode proporcionar a um paciente terminal, que de repente descobre a fragilidade da vida e por isso pode amar, puramente, sem se preocupar com as banalidades e imbecilidades que, por distração ou fraqueza, considerava importantes ou inevitáveis e o consumiam diariamente, sem se dar conta de que o que precisava realmente era o carinho das pessoas, de tempo para si, dos amigos, da família, da praia... Dessas coisas que todo mundo faz idéia e que dizem alguns livros, filmes e músicas, mas não passam de historinhas bonitinhas que, além de bobas, são distantes e impossíveis na realidade. Da mesma forma que é impossível transformar sucata em uma palavra amiga, ou surtos de alucinações hipocondríacas que precedem o sono em uma doença fatal que revele e ensine a verdadeira humildade.