segunda-feira, 30 de julho de 2012

Acidente*


Estive
por tanto tempo
inconsciente
jogado às ruas
do cotidiano
até perceber
as unhas
de um animal
sedentas por algo
riscando
minha espinha
e por um segundo
acordei, atônito
lembrando
o que era o vermelho
e a carne
até cair 
de volta
no sono do asfalto.

domingo, 29 de julho de 2012

Paredes Brancas*


São quase onze horas, ela está atrasada.
Na sacada, de costas para o apartamento,
ele se reclina sobre o peitoril
e sorve o último gole de vinho.

Ao virar-se para dentro, dá-se conta
das paredes brancas fechadas
em um enorme e espaçoso retângulo;
além do sofá, a pequena mesa de vidro
no meio da sala sustenta um cinzeiro.

Em um dos cantos, à esquerda
está a estátua de gesso que traz consigo,
símbolo de outros tempos.

As luzes da noite, do céu estrelado,
de outros apartamentos e de sua sala
refletem um vazio tão absoluto
quanto o branco.

Com a taça de vinho em suas mãos,
as lágrimas presas em seus olhos
não são pelo gesso quebrado no chão
tampouco por qualquer espera.

É apenas a sala
de um apartamento quase vazio.
.

sábado, 20 de agosto de 2011

A Luz Inconcebível*

No escuro do quarto
minha consciência é uma voz
que percorre todo o interior
sem tocar as paredes.

E no fundo, pulsando
encontro uma luz crescendo, latente
como estrela opaca, azul, intensa.

Apenas nela é possível pensar
tentando desvendar os seus caminhos
os seus motivos, mas nada entendo.

O sono não vem e sem ele há o temor
de que esta luz não me abandone.
.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Contra*

Minha doença
é também uma luta
contra deus
contra a vaidade.

Pois todos sabem
o quanto é fácil rezar
quando precisamos de socorro.

Deus não olha para mim
deus não é cirurgião
deus não está lá
para atender minhas vontades.

Tampouco pensar positivamente;
nesse caso, só o Dinheiro salva.


sábado, 16 de julho de 2011

A Outra Língua*

Falamos a outra língua do amor
quando pagamos nossas contas
decidimos o que vamos jantar
nos vemos sair do banho.

Para que dizer - eu te amo?
Se o amor é também o que não é dito
é o dia após dia
é o tempo que segue
o estado de ser.

Não dizemos
porque respiramos o que é estar juntos.
.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Ruído*

Mantra, Esquecimento ou Dedução

O ruído elétrico
da caixa de som
parece um mantra:

Ommm...

Mas a agonia espreita
como ser estranho no meio de estranhos.

A mão que procura
as últimas páginas do caderno
o que querem?
Evasão, delírio, deleite
- esquecimento.

A manhã que termina
a manhã que vai terminar
é este, eis o mote:
basta acordar, parar e pensar.

O resto se deduz.
.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

No Fim do Dia*

Celular, chave de casa, carteira;
aquele banho quente no final do dia...
- Droga, o ônibus já passou! Tsc,
esqueci de carregar a bateria.

Lembro da sensação de chegar na rodoviária,
o cheiro do bairro, o silêncio do mormaço...

Mas o cotidiano é maior
e só faz sentido o colchão para deitar;
no domingo, a tarde mal se vê pela janela
e o mês só começa quando vira,
o mês passa aos borbotões,
o ano finda, termina outra vez
-  depois continua.

Em qual lugar do ônibus devo sentar?
Vou comer o quê no almoço?
A semana, a segunda,
o sapato que estragou.

Tempo, nem coragem para um alongamento.
É tão triste não ter um alumbramento...,
uma epifania, todo dia
poder respirar e fechar os olhos por dentro
- depois sorrir, levemente...
sempre pensando nas curvas que o mundo tem.

O mundo tem curvas no fim do dia,
as ruas se repetem debaixo do sol,
das nuvens, dos carros, dos lugares, 
- dos mesmos lugares, 
em um mesmo instante
em uma mesma noite
diferente
com muitas músicas 
e um ritmo andante, às vezes repentino, inconstante, 
rumo a.

domingo, 19 de junho de 2011

Fogueira 2.0*

O problema são esses Valores...
desde que existem, nunca foram úteis.
Digo isso porque vejo hoje
como o resultado de todos os tempos.
Mas e a Tecnologia, o Conhecimento?
Nada disso tem Valor se não possui equilíbrio.
O fato é que não vivemos em uma sociedade, 
em um mundo, autossustentáveis.
As gerações passadas não foram capazes de encaminhar 
um real desenvolvimento - e tampouco será a nossa.
“A Vontade de Poder”, nos termos de Nietzsche,
sempre orientou as decisões humanas.
Por isso, todas as noções que compõem o nosso modo
de ser e pensar são equivocadas:
a mesquinharia de uma Alma além da Natureza Objetiva; 
a Posse sobre Pessoas e Coisas.
(Todo o Egoísmo será castigado.)
Mas hoje, como sempre, promete um novo amanhã 
– o Mito do Eterno Retorno –
onde tudo que é sólido estará, enfim, dissolvido no ar.
Por que então não reinventar?
Todos os Valores do Passado
são responsáveis 
pela miséria do Presente!
Inventaram o Espírito, o Dinheiro, a Família e o Amor.
Gerações futuras, dissolvam tudo! 
Transformem o mundo em que vivemos!
Conectem seus cérebros ao chão em que todos pisam, 
digitalizem a realidade,
destruam tudo o que é sólido e individual!
Até que o último Conservador seja enforcado
nas tripas do último Hipócrita!
Política para quem? Decidam vocês mesmos!
Quem quer ser o filho de um pai Ocidental , Cristão e Racional?!
(Moral só se for Macunaímica.)
É preciso atear fogo ao circo, com o mágico dentro.
Só os palhaços, anões e mulheres barbadas
devem dançar, sorrir e cantar, do lado de fora.


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Pessoas*

As pessoas nascem de repente, de um olhar
Um encontro
Duram um minuto, uma noite, um beijo
Ou desaparecem com o tempo, devagar
Tornam-se palavras...

Mas antes de haver palavras, há sentimento
Pessoas que tornam-se palavras

Memória é imagem
Visível apenas para a lembrança
Afinal,
Do que são feitas as pessoas?

Palavras, de repente lembranças
- Não tão de repente -
Pois no fim do que é tão longo
Pessoas são apenas
Sentimentos.

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sábado, 30 de abril de 2011

Cigarro*





É algo por volta da meia-noite. Ao longe, na parte alta de uma rua escura, a sombra de um homem vem se aproximando. São passos apressados e desordenados, que de repente descambam abruptamente para um dos lados e, nervosamente, voltam ao centro. Conforme chega perto e é possível ver o seu rosto, consigo reconhecer algumas lágrimas e uma expressão bastante desolada. Passou por mim resmungando surdamente alguma coisa e fumando um cigarro. Pude ver que tinha dedos finos e um cabelo meio grande e despenteado; não dava para ver a cor dos olhos, apenas o brilho vermelho do cigarro aceso. Eu tinha ido comprar um cigarro, estava com calor e sem sono, meio agoniado. Esse homem me fez pensar no quanto a vida é frágil e o desespero, eminente. Vejo este homem saindo de casa e batendo a porta com força. Tinha brigado com a mulher, saiu só de shorts, camiseta e chinelo. Mas isso adivinhei quando ele passou por mim. Eu havia ido apenas comprar um cigarro, e só agora percebo que também não me lembrava onde estava, tinha saído de casa sem saber onde poderia ter cigarro para vender àquela hora; agora, não sei se ia voltar ou continuar andando até encontrar alguma coisa aberta. Apenas acordei na cama no dia seguinte. Tomei um café e fumei um cigarro, pensando na imagem desse homem.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Suburbia*

Eu me sinto oco
e penso no sentimento
que me faz igual a todos os outros
moradores de subúrbio espalhados pelo mundo.

Quando a noite cai e o céu ainda é lilás,
as luzes dos postes iluminam as ruas que cruzam
o conjunto de prédios – e do interior de alguns apartamentos
emanam ruídos de televisores; das calçadas, ouvem-se os desvarios
                                                             [de jovens despreocupados.

Aos poucos, cada apartamento é preenchido por um total de vidas
que percorreram as ruas do centro ou em pé permaneceram atrás de balcões,
esteiras de fábricas, ou sentadas em cadeiras de colégios,
construindo um cotidiano ordinário e imperceptível
– mas extremamente útil, porque é assim que se engana a morte.

Somos todos iguais,
irmãos reunidos por uma mesma realidade,
pois tenho certeza que em algum lugar do México,
ou da Indochina,
um rapaz de cabelo curto e olhos negros
fuma, sem camisa, seu cigarro na sacada de um pequeno apartamento
e vê a surda sinfonia que fazem as luzes apagadas e acesas dos outros prédios.

O ônibus de todas as manhãs é também para ele
um animal sagrado que carrega em seu bojo a tola epifania
de uma multidão de pessoas que todos os dias sonham acordadas
esperando por sua chegada como em uma procissão estagnada
                                                       [no mesmo lugar de sempre.

Na sala, uma mulher sentada no escuro é iluminada apenas
pelo reflexo azul das luzes da televisão, visto de longe por alguém
em qualquer uma das sacadas, do México, ou do mundo.

O rapaz termina o seu cigarro,
olha uma última vez para as lajotas da rua,
é noite e as vozes vão diminuindo até que um silêncio
preenchido de leves ruídos anuncia o momento de se preparar
para mais um dia de trabalho.

Este silêncio é a imagem do subúrbio.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Linha do Trem*

Retrato desta paisagem nunca houve: os vagões estacionados na estação abandonada, exceto por um ou dois bêbados tomando suas doses, e o convento de pedras construído por escravos a assistir tudo do alto do pequeno morro. 

Os vagões tinham aquelas escadinhas, que levavam ao seu oco interior, repleto de emoções e muita ferrugem. Depois, era preciso pular para descer - um grande salto para a infância. O céu: o céu era quase sempre azul, quase sempre o céu da tarde. E o mato crescia na beirada de tudo, dos trilhos, das rodas de ferro, entre as tábuas, tábuas velhas e apodrecidas. Não era um trem de gente, esse passava muito raramente, numa infância ainda mais remota. Era trem de grãos, ou de enxofre, seja lá o que isso fosse.

                                                        * * *

O objetivo era simples: permanecer o maior tempo possível sem cair da linha. Fui campeão algumas vezes, embora geralmente houvesse trapaça do amigo. Ou então fazer o percurso pisando só nas tábuas. Ao lado dos trilhos, havia um morro ainda de terra, com terreno esburacado e cheio de pedras, que também poderia servir de desafio complementar, caso fosse necessário; mas o legal mesmo era transpô-lo de bicicleta. Do outro lado, barracos e casebres emergiam de dentro do mangue, onde se podia caçar caranguejos com lama atolada até os joelhos. Mais adiante, havia a ponte de ferro onde o trem passava antigamente e que naquele tempo servia apenas como ótimo lugar para pescar.

                                                       * * *

Os vagões de repente desapareciam. Era menos divertido passar e não encontrá-los. Somente os bêbados lá permaneciam, de pé no balcão do bar que era um vão na parede da estação, suja, destelhada, carcomida pela ação do tempo e dos vândalos - ou pelo vandalismo do tempo. O único desafio que restava era pular da plataforma; usar a escadinha que levava ao chão, jamais.

Foram poucas as vezes que pude atravessar o vagão. Durante alguns anos pude vê-los aparecendo e desaparecendo, até que sem me dar conta os vagões desapareceram de vez, restando apenas os escombros de tábuas, trilhos e o verde do mato implacável.

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Máscaras*

Escrever é também assassinar eu. E se assim não for, não tem graça.
Enterrar as várias máscaras... no fundo, ouvir um grito de horror.

Mas tudo isso começou, porque me vi em alguém.
Vesti uma das expressões mais tristes... mais felizes.
Senti aquela deliciosa e única opressão no peito - ainda bem que era de tarde.

(Minutos, minutos...)

Aí então fui escrever, mas antes pensei: paramos todos para nos refrescar
no sol, precisava saber quanto tempo havia se passado:
"não sou bom com dinheiro, prefiro ter sem possuir, como a vida, o amor, a palavra...".

Aviso: eu que escreve também é personagem.
Não, não, não; não há nisso nem mentira, nem verdade, nem ficção.
Apenas é. Porque sou aquilo que sou, aquele que é. Por que não?

E sempre música. E sempre tempo, e sempre clima. Cidade e praia.

(Minutos, minutos...)

Tarde, espelho e jardim: é uma bela combinação, mas não um fim.
Eu mesmo só peço que haja vinho. É que o passado às vezes me atropela no presente - com que força!

É que eu não sei partir (pois só assim posso ser triste, sentindo saudade,
por sentir).
Aviso: não se engane com quem escreve.
Por favor, lembre-se apenas disso.

Por hora, me vou - já tarde.
Até logo ou adeus.

Eu.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Retrospectiva*

Enfim uma croniqueta, coisa que há muito desejo e nunca faço. Vai chegando o fim do ano, e uma necessidade de retrospectiva se torna tão atraente..., quase um dever. 

Durante algum tempo pensei qual seria o "evento" que marcaria 2010: nem Copa, nem pré-sal, nem Dilma; este, para mim, foi o "ano da Classe C". Ficava impressionado quando via no noticiário matérias sobre acesso à renda, poder de compra, bons índices econômicos. Esse parece ter sido o movimento que explicou o Brasil em 2010. Até que um dia o exército subiu os morros do Rio de Janeiro - e bum!, lá se foi a assegurada posição de destaque que a minha proeminente Classe C alcançou. Foi como se uma coisa enfim estivesse acontecendo, uma coisa que marcaria a história do Brasil - caso meu ensino médio tenha sobrevivido até então. Ainda mais depois de assistir Tropa de Elite II - o que ajudou a criar aquela sensação de "estamos vivendo a ficção ou a realidade?".

O movimento da super-estrutura econômica globalizada que torna o país a bola da vez também trouxe muitas "estrelas" para cá: não fui em Metallica, nem Rage Against, nem Paul McCartney, nem Incubus de novo e otras cositas más. Paciência. A vida burcorática tem seus caprichos e nem sempre é possível haver sobremesa, mas nem por isso os enxeridos se divertem menos, não é mesmo? O que precisa haver é rok'n'roll - e banda larga para baixá-lo.

Agora é natal, tempo de boas compras, e eu continuo sem saber se o Haiti é ali ou é aqui. Há terremotos e mais terremotos no mundo. 2012 está logo ali. Enquanto isso, vejamos o que a fortuna nos reserva para 2011. Se o capitalismo permitir, o Brasil há de se tornar o país do futuro e a classe C há de tomar o poder. Se em 2011 nevar, quem sabe eu não vivo pra ver a revolução da educação brasileira? Mas deus, ao futuro pertence. As férias me dizem estão para chegar e o ano ainda não acabou. Que venha o outro, e a gente vê o que dele pode ser feito. 2010, valeu, mas pode trazer a conta. Se em seguida puder haver praia, eu agradeço.


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Incursão*

Toca o despertador - daqueles antigos, com sininhos. Ainda é noite, mas as luzes de casa já estão acesas: é hora de sair - viajar.

A cidade ainda não acordou, permanece extremamente silenciosa; pessoas e carros raramente passam. As ruas amareladas pela luz dos postes sustentam o céu noturno, estrelado, que lentamente se torna azul escuro, depois claro e logo manhã, dia. O ônibus parte para outro mundo, que começa com muita estrada, primeiro com morros afastados no horizonte da janela e que depois espremem a pista no caminho cheio de curvas rumo ao topo da serra escondida no meio da neblina. De repente, o caminho volta a ser reto e o morro vai ficando para trás, dando lugar a grandes imensidões de pistas, carros, casas, cidades, prédios e barulho, fios e outdoors, fábricas, escolas, muros e mais placas, sinais, faixas e multidões de pessoas.

A outra cidade é um mundo muito maior e mais apertado, totalmente diferente. O ônibus vai, se enrosca e para no trânsito; depois continua, para mais mil vezes, se espreme em ruas estreitas, grandes avenidas. E depois de muito verde, amarelo e vermelho, acaba chegando: num bairro grande feito cidade, com praça amontoada de barracas e gente, e pessoas lotando as calçadas, formigando dentro de lojas, entrando, comprando e saindo. O ônibus ficou parado no estacionamento, descansando enquanto as canelas começavam a suar, correr, andar, parar, subir e descer, voltar, para depois seguir, cansar até antes da tarde chegar, para logo em seguida partir, retornar durante a noite de um dia inteiro fora, reclinando o cansaço na poltrona e cochilando entre os borrões de luzes amarelas e vermelhas que vinham da estrada.

Chegando, a cidade continuava daquela mesma cor amarelada, mas agora preparando para se recolher. Desembarcando, do ônibus para casa e da porta para a cama. Amanhã o dia acordaria já azul, com sol e nuvens. Seria um dia normal, sem viagens e outras cidades. A vida continuaria.

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Morfina*

Vou me deitar, antes que fume outro cigarro
Vou esperar que o ano acabe, antes que ele acabe comigo
Meus joelhos doem e meus nervos explodem
Tenho um sonho antigo
Sonho com um pouco de morfina
E menos pessoas no mundo
Sonho com um ouvido para chamar de amigo
Me falta paciência quando não me falta abrigo
Sei de tudo que preciso
Mas não consigo, eu não consigo
Fazer silêncio, sem fuder comigo
Eu sonho com um pouco de morfina

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Temporal*

Ou o Relógio Sem Ponteiros

Tarde de domingo, depois do almoço. Há quatro dias não parava de chover. Abre a cortina, vê o temporal castigando a rua: a chuva caindo de lado, o vento quase levando os galhos da árvore. Tudo muito cinza. Tão escuro, logo cedo, que a luz dos postes já estava acesa.

Deita no sofá. Nada na tv, nem videogame, nem amigos fora de casa com um tempo ruim desses. Sua maior sorte seria dormir. Entrega-se ao tédio, ao braço do sofá e ao cobertor. Desejava que as horas passassem logo e fosse logo amanhã. Inquieto, isolado naquela sala perdida em um temporal de domingo, vai atrás de umas fotos que guardava na gaveta. Além do álbum com balões coloridos na capa, achou um relógio antigo. Numa tarde de chuva em casa, sozinho, parece que o ar se torna um véu espesso impregnado de horas mortas. Reparou que o relógio não tinha ponteiros. Não lembrava o por que daquilo e foi se deitar novamente.

Domingo à tarde, sol. O dia está lindo lá fora, dá vontade de abrir a janela e deixar a luz entrar. Ou quem sabe sair, passear, ir à procura de lugares verdes, com água por perto; caminhar nas areias da praia que não parece ter fim (mas há um morro lá longe). O céu deve estar laranja na praia, manchado de nuvens roxas, com pinceladas de rosa. O mar vai seguindo ao lado, calmo, azul escuro, com o barulho de ondas quebrando no raso. É bom andar com as pernas, pensar na vida e sentir que todas as coisas só podem ser do jeito que são, sem se importar com os passos que ficam para trás na areia. Parece até que a vida é só o presente, porque a marca dos pés a gente acaba encontrando na volta – mais fracas, é verdade. Do outro lado da janela, o tempo muda.

Aquelas fotos lembram um domingo na praia. Era inverno e garoava fino. O tempo estava tão nublado que a luz dos postes já estava acesa (alaranjada) e o mar grande, bravo, inpenetrável. Sombras de pessoas apareciam distantes, possíveis pescadores.  Não havia outro abrigo, se não um telhado de palha para se esconder da chuva e algum tempo a mais antes de voltar para casa. Não se importava com a paisagem fria, desejava que as horas não passassem, mas que pudesse estar em casa, ou caminhando na praia num dia de sol. Olhando aquelas fotos, sente que o tempo é uma tarde de domingo chuvosa, e que a felicidade é cinza da cor do céu quando ele se junta com o mar em um dia nublado.

Abre a cortina e vê o tempo estiar numa tarde de domingo. Mais uma tarde de domingo, outra fotografia perdida na gaveta e mais horas que não serão marcadas no seu relógio antigo.

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sábado, 20 de novembro de 2010

Enxaqueca*

Ou O Trabalho de Ezildo*

Ezildo chegara naquele momento do emprego em que se fica preso, atolado no meio do caminho. As perspectivas não eram muito animadoras, o cansaço era enorme e todas as outras tantas consequências, bastante desagradáveis.

Outro dia ficou sem hora de almoço porque tinha muito cliente esperando; quase nove horas aturando seres humanos, colado na frente da tela de um computador – aquela luz azul piscando, força tanto a vista... -, sobrevivendo à base de muito café e ódio ao capitalismo selvagem.

“De todos os males que castigam os homens desde o princípio dos tempos, o trabalho é o pior deles!” O desgaste era tanto que Ezildo chegava a delirar filosofias desse tipo enquanto sorria para os clientes. “Crédito ou débito?” 

Queria saber só de casa e banho, cama e mais nada; na sua cabeça, a dor ecoando desde o começo da tarde começava a pulsar mais forte, a ponto de quase anuviar o raciocínio, flash no escuro, tontura, mas sabia que continuava no mundo, graças a uma certeza: tinha um caroço de enxaqueca latejando palpável no fundo dos olhos que estavam sendo pressionandos contra o miolo da sua cabeça.

Depois que piscou forte, sentiu-se mais aliviado, porque seu cansaço era concreto e somente aquilo Ezildo era capaz de sentir. Entregou-se ao cansaço como quem se entrega a um colo de mãe, e durante um momento de claridão foi feliz. (Até uma lágrima, quase invisível, brotou das olheiras de Ezildo, encontrando o canto de seu sorriso.) “Eu vou acordar, eu vou acordar, só mais um pouquinho, porra.”, ele dizia. Ou era o caroço? “Vai se fuder nessa porra!” Nas primeiras vezes, quem estava em volta acudindo fingiu que não ouviu. Mas depois o semblante de Ezildo ficou mais sério e ele disse irritado feito criança: “Essa porra desse trabalho! Vai todo mundo se fuder!” Dessa vez quem estava em volta não teve como fingir que não tinha ouvido. Até Ezildo ouviu e deu por si no chão do escritório, sendo rodeado e abanado, sentindo que alguém enfiava uma agulha atrás de um lado da sua cabeça. “Puta que pariu, que dor de cabeça da porra...”, foi a primeira coisa que ele disse. “Essa enxaqueca vai me matar!”

Mas se matou, não foi daquela vez e nem tão cedo também não foi. O caroço continuou castigando Ezildo, que além de muitos remédios precisou se empenhar ainda mais para evitar falar palavrões toda vez que sentia aquela terrível dor de cabeça durante o trabalho: fechava os olhos bem apertado, respirava fundo e continuava a sorrir mortalmente para toda a humanidade..

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Desencontro*

A viagem de ônibus demorava mais ou menos três horas. Três horas de viagem, sem companhia, observando as paisagens que se seguiam pela janela: planícies, elevações, curvas, descampados, matas, casas simples e bairros pobres. Não se via mar, sendo possível apenas pressenti-lo. 

Em breve chegaria, depois de esperar algumas semanas. Em breve haveria um reencontro, outro reencontro em uma relação feita de reencontros, na qual pouco se viam e muito se falavam. Quantas vezes já não experimentara aquela sensação, misto de expectativa e saudade, mas naquele momento havia algo de diferente nos olhos refletidos no vidro, acompanhando as paisagens. Poderia ser cansaço, talvez fosse tristeza. Não era alegria, nem excitação. No ônibus quase vazio, o silêncio dos corredores se juntava ao barulho dos motores. Um breve cochilo.

Beijos e mãos dadas. Casa. Breves momentos de prazer. Palavras que raramente se encontravam, pouco além de coisas pequenas. Deitados, juntos, experimentava aquela sensação, como se os olhos estivessem sendo mais uma vez refletidos no vidro, mas não havia paisagem do outro lado.

Beijos, abraços e um olhar de adeus. Embora não soubesse, não haveria outro reencontro. Haveriam de se falar, mas nunca estariam novamente deitados um ao lado do outro. Aqueles momentos haveriam de ficar para trás na paisagem, perdidos entre muitas curvas, como a lembrança do mar escondido atrás de casas simples e bairros pobres. Só acordou com as luzes da cidade que a esperava.

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bem-Te-Vi*

Sesta de domingo: do meu quarto, ouço o bem-te-vi a conversar; do meu lado, sinto o perfume de mulher dormindo.

Uma ilha de tranquilidade paira sobre a tarde. Tons de amarelo e laranja, claridade e luz, penumbra e sol, se misturam - tumultuam, como o som dos passarinhos lá fora. Tornam-se vontade, devaneio: eis uma crônica - impulso, desatino e a lembrança dos primeiros cânticos, quando não havia lira, apenas árvores, apenas música. O homem aprendeu a cantar olhando para o céu, imitando o bem-te-vi.

“Bem-te-vi! Bem-te-vi!” Assim me comovi: o bem-te-vi me fez sentir.


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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Voo*

Tem passarinho que só canta
Quando chora
Ele voa, ele voa
Quando chora
O céu é mais comprido
Ele voa, ele volta
Quando pousa
Ele sonha.

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sábado, 29 de maio de 2010

A Conta de Luz Chegou!*

Amor, a conta de luz chegou!
Enfim, esse é o nosso lar
Deixa o papel pra depois...

Amor, o mês 'inda não virou
A semana já passou
Não deixe a louça pra depois...

Vou na janela e vejo o dia
Tão lindo lá fora - bom pra lavar!
As roupas sujas do cesto
O sol vai secar na hora

A geladeira chegou e mudou nossa vida
Agora é outra, só que a mesma rotina
Almoço, café e janta
Tem sempre que ver o que vai ter

Nas férias, eu visito a família
No fim, até que a gente se vira
Com o tempo a vida se ajeita
E a casa precisa estar limpa

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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Três em Três*

Ou Tercetos Livres

Eu estou só pensando
e enquanto penso
vou escrevendo.

Eu quero só sentir
e ter consciência
do que sinto.

     * * *

O cotidiano
é minha filosofia
minha religião.

Vivo uma narrativa épica
invisível:
tudo é muito em vão.

    * * *

Eu quero
o verso, a música
a beleza e a tristeza.

Apenas isso:
se calo ou escrevo
é porque estou vivendo.

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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Por Isso*

Ou No Final do Dia.


Me leve ao silêncio
Ao seu regaço.
Me livra do cansaço.

Porque hoje o dia me gastou
Usou meu tempo, minhas pernas.
Quebrou meus membros.

Por isso eu queria ter descanso
Chorar de tanta beleza
Lendo um livro
Lembrando a nudez...

Só não me peça para falar
Nem pensar.
Não quero resolver.

Por isso quando paro
Faço versos
Como quem chega em casa
E se deita na cama
No final do dia.

Por isso, no final do dia...

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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Arrupiu*

Arrupiou, e é, e foi?
Pois eu me vou
Sem saber, sem chegar
Só de ir, já passou
Quando vai ver, acabou
Finjo que vou, não vou
Fui indo, me fondo
Quem não viu, não lembrou
Quem viu, nem ligou
Nem aí, nem eu com isso
Nem ninguém com nada
Ou, não; né, não? sei não
Sei só que sim
Arrupiou, sentiu, já foi.

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terça-feira, 2 de março de 2010

Penélope Cruz*

"Não quero lirismo que não seja fruição"
.
Eu não a conhecia. Ela saiu do banho - este momento de tanta feminilidade -, enrolada em uma toalha branca; os cabelos presos, a nuca, os braços e as pernas nuas, frescas. Caminhou na sala escura e vazia e parou em frente a uma grande janela cortinada. Trivialmente.

Eu exitei, mas minhas pernas não. Fui em direção a ela e me aproximei de suas costas. Apenas os ombros visíveis, turvando minha razão, movendo por dentro - toda sensualidade do mundo naqueles ombros. Mordi seu pescoço. Ela se assustou, de leve. Continuei mordendo suas costas. Ela se permitia.

Depois estávamos de frente. Ela sorria, um suave movimento dos lábios, apenas. A expressão nos seus olhos transformava o absurdo e o desejo em beleza e serenidade. Agora estávamos no chão. Minha mão ansioasa se adiantava. Dentro. Úmida. E, naturalmente, provei. Ela comprime os olhos, morde os lábios, e suas sombrancelhas arqueiam toda a sensualidade do mundo. Toda a sensualidade do mundo naquela expressão.

Daqui em diante o sonho começa a mudar, a sala fica iluminada, e surgem outras pessoas. No meio desta imagem confusa, permanecemos sentados no chão; eu disfarço minha nudez atrás de seu corpo e ela, também sem entender, se cobre com a toalha.

* * *

Certa vez classifiquei Almodòvar como "belo e doentio". Assim é o desejo. Assim somos nós.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Sereia do Alado*

Queria escrever, uma historieta assim, bem psicodélica, sem pé nem cabeça mesmo, juntando cabeça de homem em corpo de cavalo: a leseira de um amigo meu, que se chama a Sereia do Alado.

Sentido mesmo, como não tem, precisa ser inventado: menina moça, mulher e louca, de batom na boca,  nasceu pra ser "artista", virou cantora de forró. Ela era uma sereia, peixe-morto fora d`água, e vivia no Alado, que pode ser tipo um povoado, onde mora gente crua, ouvindo ela cantar desafinado: "Meu amor, não faz assim, que eu sou sua/ Você me traiu, me trocou, me deixou na rua" - choradeira que todo mundo sabe porque acha que amar é mesmo assim.

Tanto é que a melosa melodia persuadia: a sereia dava show, grunhindo seu versado, jogando pra todo lado seu cabelo esgranhado, requebrando adoidado e deixando tudo besta os cabra do Alado. Foi quando apareceu um empresário - de bigode e peito à mostra -, oferecendo oportunidade, chance única de enricar: garantia de sucesso!

Tanto foi, que dali pro camelô, um pulo foi; em nem um ano, tudo quanto era carrinho de som estardalhava: "Meu amor, não faz assim, que eu sou sua/ Você me traiu, me trocou, me deixou na rua". A Sereia do Alado era o cd pirata mais vendido da parada.

Agora, quando a gente liga a tevê, vê a desgramenta gemendo com a voz  ruim e toda esculhambada; fez plástica na cara, mas ainda anda com aquela boca pintada - exu-maria, cavalo do cão, coisa mais malassombrada, fechando de salto, gritando mais alto, descendo até o chão, abalando na balada -;  anuncia o apresentador: com vocês, a sensação do momento, a maior cantora de brega, forró, maxixe-pop, a Sereia do Alado!

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domingo, 10 de janeiro de 2010

Jeremíades*

Jeremíades, também conhecido pelo vulgo "Jera", cursou todo o ensino básico e acabou virando catador de latinhas  e entulhos em geral. Nunca teve gosto pela bebida, mas sempre viveu em conflito dentro de casa, por conta de sua "loucura" aparentemente congênita. Não se entendia com pais, irmãos e professores. Preferia perambular sozinho pelas ruas, terrenos baldios, riachos, matagais.

Fugiu de casa quando já era quase adulto. Pegou uma briga de faca com um fulano que maltratava dois burros de carroça. Saiu ferido mas deixou furado o destratante que judiava dos bichos: "Pra que fazer isso com os pobres, seu animal?!"

Viajou por estradinhas e cidadezinhas recolhendo o que poderia ter algum valor e trocando para ter o que comer. Conforme ia se quedando nos lugares, arrumava companhia, mas nunca amigo gente, "tudo uns animais". Criava cinco cachorros, a sua família.

Até que um dia Jera achou um sitiozinho ameno, bem abandonado no meio do interior, e resolveu parar um pouco. Estava cansado de tanta andança por aí - os burros mereciam repousar. Juntou tábuas e papelão, improvisou uma vidinha cotidiana com os bichos e se estabeleceu quieto por ali. Sofreu calado e mudo quando tempos depois adoeceu e morreu um dos seus burrinhos, que atendia pelo nome de Pedrez. Cachorros não faltavam.

Ficou tanto tempo sozinho que, sem preceber, foi murchando sem sofrimento em sua solidão.

Morreu quase velho. Dava pra ver que os bichos sentiram a falta dele. Mas depois foram se perdendo pelos terrenos do mundo. Só o outro burrinho, que atendia pelo nome de Frederico, continuou pastando por ali. Até um dia também murchar de solidão.

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sorria*

Sorria agora, pois em menos de duzentos anos você nunca terá existido. Seus tataranetos não saberão quem foi você. Não restará nenhuma grande obra tua. Nenhum retrato. Nenhuma lápide com teu nome. O tempo terá apagado todos os teus vestígios na terra. Sua vida terá se extinguído junto de tua memória - tudo muito efêmero.

Mas o que terá acontecido com tua nobre alma? A qual lugar maravilhoso ela o terá levado? Como é a vista do alto céu azul? És mais feliz vivendo por cima das nuvens? O que restou do teu corpo, da tua consciência ou de tua personalidade? Conseguistes mantê-la intacta agora que teu ego vive para sempre? Ou será mais uma inocente reencarnação? Viestes em forma de gente, tornasses, enfim, um grande rei, ou nascesses, de novo como outro inseto?

Sorria agora, que posso ver em teu sorriso toda a certeza de quem neste momento está vivo, todo o orgulho de quem existe e faz tanta diferença neste vasto mundo repleto de milhões de outras existências únicas como é a tua. Sorria, pois quando sorri teus olhos estão fechados para o passado antes de ti, tão infinito e tão distante, que no escuro da tua ignorância só a luz de um pequeno futuro tem força para brilhar. Sorria, pois serás tão ignóbil quanto este passado e teu sorriso, um alegre fóssil. Sorria, pois neste teu sorriso está o emblema da soberana natureza, que nunca dá por si; sorria pois quem sorri através de ti é o tempo que tudo destrói, que leva e faz passar, sem nunca recusar a felicidade a quem ignora seu trabalho de apagar, refazer e desfazer mundos, pessoas e certezas, para depois com indiferença soprar o pó das coisas que um dia já foram, e já sorriram.

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A Casa*




           A CASA, SE CONSTRÓI
           E NELA SE CRIA
           VIDA.



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sábado, 19 de dezembro de 2009

A Morte da Bezerra*

Cá estou eu, mais uma vez, pensando na morte da bezerra. Lembro-me de ser criança, estar distraído, com o olhar perdido em algum vazio, e me perguntarem "o que foi, tá pensando na morte da bezerra?"

Hoje em dia, se me perguntassem "o que é filosofia?", eu responderia, "é a morte da bezerra." "O que é melancolia? É a morte da bezerra."

Seria também o caso de aproveitar o ensejo para investigar as explicações sócioculturais, históricas, deste patrimônio mitológico brasileiro, mas para que todo este trabalho, se afinal agora é tarde e a bezerra já está morta, melhor mesmo é deixar a coitada quieta.

Fiquemos nós com a dúvida, sem saber da onde vem essa expressão tão enigmática e familiar. Será um símbolo ancestral do vazio universal? Um estado de alfa involuntário? Stand by do cérebro? Simples distração?  Vai saber. Continuemos carregando este cadáver amigo, companheiro, que, ao longo da vida, apodrece serenamente em nossa consciência.

Mas caso o leitor nunca tenha pensado na morte da bezerra, não há com que se preocupar, este animal morto não irá mudar nada em sua vida, não trará mais sorte nem fortuna, pois não passa de mais um folclore inútil, coisa de quem escreve, de quem não tem mais nada pra fazer.

Coisa de quem vai chegar na velhice e dizer, satisfeito: "Passei a vida inteira pensando na morte da bezerra."

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Burocracia É Deus*

Ó, deus da burocracia
me manda um anjo
com certificado de divindade
comprovante de residência no céu
e recibo de oferendas recebidas.

Ó, deus da burocracia
me manda este anjo
para ser meu fiador
e permitir que eu siga
por suas segundas vias tortas.

Despacha um santo com urgência
para resolver este meu ofício
se possível até o dia trinta
não abandona esta humilde pessoa física
Ó, grande deus da burocracia.

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Incômodo*

Ponham as rédeas nos sentimentos
digam para onde devem ir
inventem a vacina contra o desejo
a pílula da conformidade
a lei de como amar.

Já viram  deus,
mas nunca a liberdade
animal selvagem
mostrando os dentes.

Há de ser regra a constância
não mais a contradição
daí então não haverá mais humano
imperfeito, falho, vacilante
meio divino, meio animal
boca, sexo, estômago
consciência e carne.

Não haverá mais conflito
nem vida, nem paixão
apenas mundo, controle
apenas prisão.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Histórinha de Dormir*

Era uma vez, lá em Barbacena, um menino bem magrinho, que vendia sorvete na praia.

Era pequeno e já trabalhava. Passava o dia inteiro vendendo sorvete.

E enquanto vendia, aprendia. Sua vida ia se tornando histórinhas de dormir.

Depois trabalhou também numa fábrica de banana, descascando banana. Mas queria mesmo era ser jogador de futebol.

Tinha vezes em que o pai dele demorava mais e quando chegava em casa era gritando, brigando, falando enrolado. O menino que já era calado, se entristecia.

O menino sabia que a vida era difícil.

E quando cresceu, ensinou todas estas histórias.

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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Enfezado*

Levantou com o pé esquerdo. Era uma terça-feira e ontem havia sido preciso fazer hora extra (não remunerada) no trabalho, em mais uma daquelas reuniões cheias de clichês administrativos e muitas cobranças (detalhe: em plena segunda-feira). Sem contar que o salário ainda não tinha caido e as contas já estavam todas atrasadas.

Não bastasse tudo isso, o despertador estava meio doido, acordou em cima da hora e teve que pegar um trânsito absurdo para chegar no trabalho e encontrar o chefe com a cara daquele tamanho: "É foda, viu!" Mal deu tempo de lavar o rosto e realizar as necessidades matinais - e o vaso ainda fez o favor de entupir. Deixou pra ver isso depois, quando chegasse.

No trabalho, aquele mesmo aborrecimento de sempre, nada ainda do salário cair, a impressora dando problema e a internet ficou pelo menos uma hora sem dar sinal de vida; atrasou o documento que precisava mandar e por isso a firma provavelmente ia ter que pagar uma multa. Mais reclamações.

Final de tarde, hora de voltar pra casa, justo quando costuma desabar uma tempestade tropical e terminar de comprometer o trânsito que já é monstruoso nesse horário.

Chegou três horas depois. Não tinha nada para comer; tinha esquecido de comprar alguma coisa. Um banho: um banho era a salvação. Mas antes precisava "aliviar a consciência" no vaso; quando abre a tampa tem a triste e furiosa lembrança que aquela porcaria está com problema. Tenta a descarga, o balde, o desentupidor: nada. Só piora ainda mais o cenário.

Depois de  inúmeras tentativas, que acabaram de esgotar sua paciência, com repugnância, somada à indignação, à revolta e a todas as coisas que vinha passando, começou a remover o conteúdo com as próprias mãos, enquanto lágrimas de ódio brotavam de suas olheiras, os olhos vidrados, os dentes cerrados e os movimentos cada vez mais convulsos, até que não suportou mais a pressão interna de seus nervos e explodiu em golpes contra o vaso, quebrando a louça, seus dedos, suas mãos, fazendo cortes profundos no braço, até cair e bater a cabeça em uma ponta providencial da privada espatifada, que viria pôr fim a todo aquele sofrimento, àquela vida de merda.

Na medida em que seu sangue e sua consciência iam se esvaindo em meio à imundice do banheiro, sua cólera e seus problemas também iam sendo esquecidos. Tudo o que sentia era uma sonolência boa e tranquíla que aumentava conforme era abraçado pelo frio dos azuleijos - pelo frio da morte, que se aproximava calmamente.

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Quinto Dia Útil*

Não tem mistério, só complicação: acordou, trabalhou, comeu, dormiu. Eis a rotina diária de todos os dias para um cidadão minimamente assalariado. Pouco encantamento, muito esforço e ainda menos tempo para fazer qualquer outra coisa, do tipo pensar, viver, viajar...

Mas nem tudo é martírio. A felicidade é do tamanho de um crediário e tem o sabor e a simplicidade de um pão com ovo. E esta felicidade tem uma data mais ou menos certa para acontecer: o maravilhoso, o sagrado, o quinto dia útil! Não há evento mais aguardado na vida do humilde proletariado. Quando enfim chega essa época de brevíssima fartura, aí então é um regozijo só - melhor do que andar pelado em casa -, até que a fartura novamente dê lugar às faturas - o que geralmente acontece antes mesmo do décimo dia útil - e tudo retome seu ritmo usual de recessão, apertos e privações, o que, na visão de um devoto trabalhador, não são senão  necessárias provações a enfrentar até que aconteça a próxima virada de mês, e com ela chegue novamente o santo dia de mais um pagamento.

O jeito é trabalhar. É o que há de mais digno a fazer. O que não dá pra ter agora, ou parcela ou deixa pra depois, porque tudo, um dia, vai melhorar. Com as bênçãos do capitalismo, é só ter fé que tudo vai dar certo.

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Nuvens*

Onde eu nasci era qause todo dia assim, o céu cheio de nuvens: nublado. Tinha vezes que eu queria muito ir na praia (tinha visita mais que importante, do amor), mas o céu estava sempre muito fechado, com cara de chuva, e a água muito gelada.

Quando vejo o céu assim, tão cheio de nuvens, tenho saudades, porque onde eu nasci era assim.

Depois conheci céus diferentes, sem nuvens, com tempo aberto a maior parte do tempo, achei bonito e gostei da ideia de ter sol o tempo inteiro; dava pra ir na praia todo dia.

Mas com muito sol faz muito calor e muita claridade dá sono; e mesmo com muito sol não dá pra ir na praia todo dia: são muitas coisas, às vezes até mais que o amor, mais que a praia.

Bom mesmo era ter um pouco de céu assim, cheio de nuvens, pra ficar emocionado lembrando, amoadinho, sentindo falta. E outro pouco de céu aberto, com sol queimando, a gente ardendo, mergulhando.

Tudo isso só de olhar pro céu. E ver as nuvens...
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Tatuagem no Pulso*

As agulhas da ideia
perfuram a pele dos pensamentos
e a tinta misturada com sangue
descreve no pulso
a tatuagem indelével
a palavra em grego
que não deve jamais
ser esquecida:

SILÊNCIO.

Tatuagem no pulso
para ver sempre
lembrar a todo momento
do mais sublime ensinamento
dogma, obsessão
verdade, convicção:

SILÊNCIO.

Gravado na pele
certeza de tranquilidade
prática sutil da morte em vida
lugar comum de toda sabedoria:

SILÊNCIO.

O fim monótono da existência
a ausência do verbo
do erro e do ego:

SILÊNCIO.

Vontade íntima
constante e exposta
tatuada no pulso
gravada na pele.

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Como Me Tornei um Babaca*

Foi muito fácil, qualquer um pode. Mas, na verdade, não teria sido possível sem a ajuda dos outros, afinal, é preciso que as pessoas lhe considerem um antes de você mesmo assumir essa tão desprezível realidade - ser um babaca para si mesmo geralmente é mais difícil, pois exige muita paciência para a autocrítica e gosto sádico pela autodepreciação.

Um babaca nada mais é do que uma espécie de louco que não foi excluído e permanece incomodando os indivíduos normais da sociedade. Para ser um babaca você precisa irritar as pessoas, ser inconveniente, chato, e sobretudo não falar a mesma língua que elas, não compartilhar dos mesmos assuntos, soltar frases aparaentemente desconexas, com sentidos de outro mundo, ou ficar em silêncio e ser um babaca do tipo autista ou arrogante.

Para a maioria não é fácil carregar o peso de um título tão distinto, que exige constante apereiçoamento na arte de ser mal quisto, mas o dom geralmente é superior às adversidades e tentativas de se fazer aceitar e levar uma vida normal junto de pessoas normais. O verdadeiro babaca sempre consegue dar um jeito de estragar tudo e causar aquele precioso desconforto geral por onde quer que passe.

Se você também se acha com vocações para ser considerado um autêntico babaca; se muitos já fizeram o favor de te dizer isso, ainda que nas entrelinhas, não se intimide com essa responsabilidade. Para quem carrega o dom de ser um babaca, nunca é preciso muito esforço.

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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Nem Tudo*

A vida é um mar de rosas
Por isso tenho sangrado tanto
O amor é a janela aberta
Por onde entra o ladrão

Não me mostre o espinho
Deixa eu adivinhar
Quando alcançar a rosa

Tudo é tão belo
Nesse imenso jardim
Mas nem tudo se colhe
Nem tudo se beija

Pois tudo acontece
E não se sabe o sabor
Só se conhece o espinho

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Mais Leve Que o Ar*

Cerca-me do teu carinho
Mas deixa um caminho
Para eu sair
E me sentir sozinho
Quando eu estiver distante
Voltar chorando
Como criança perdida

Você vai se lembrar de mim
Quando tudo acabar
Quando tudo chegar ao fim

Ele não soube escapar
Será tão triste
Como sempre é
Depois só passado

Mas até lá
O quanto custa
Estar soterrado
Por algo mais leve que o ar

Sem nunca saber
Porque tudo é assim
Sem precisar ser
Tão pesado

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A Arte da Tristeza*

Uma cena dessas, tão comum nos dias de hoje, o homem que antes ou depois do trabalho vai para o supermercado, fazer uma comprinha de coisas que estão faltando em casa.

Passeando pelos corredores e prateleiras, empurrando seu carrinho, sossegadamente, estica o braço, alcança um macarrão, molho de tomate, anda mais um pouco, precisa de pasta de dente, sabonete - e umas cervejinhas também, para relaxar em casa no final do dia.

Já no caminho do caixa, dá uma olhadinha na seção de entretenimento, que além de cd's, dvd's, tem livros também: receitas de comida, Sêneca, Ovídio, como se tornar muitas coisas, best-sellers em geral; mas um livro por acaso chamou sua atenção. O título era "A Arte da Tristeza". Começou a folhear as páginas e encontrou algumas frases, do tipo: "A tristeza, quando é um sentimento puro, livre de raiva e frustrações, pode trazer muita calma e tranquilidade; A felicidade é tão inocente! Frágil e iludida, como um adolescente; A lânguida tristeza é o estado de paz mais próximo da verdadeira serenidade."

Interessante. Quem sabe com uma dessas frases não poderia justificar para si mesmo, ou para alguém que o interpelasse, aqueles momentos que, sem nenhum motivo aparente, tinha vontade de ficar sozinho, em silêncio.

Resolveu levar o livreto. Sentiu vontade de mostrar para a esposa. E afinal de contas, era tão baratinho! Jogou ele entre os outros itens do carrinho, e antes de ir embora ainda deu uma olhadinha na seção de eletrodomésticos.

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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Um Dia na Vida*

Primeiro, o relógio avisa que é hora de se levantar. Depois, a toalete, a água no rosto e o espelho, o primeiro contato com a imagem de si mesmo: começam a surgir as primeiras impressões, ainda misturadas com imagens de sonho. Lembramos da vida.

No café já se começa a processar as tarefas, pessoas, eventos, pensamentos, lembranças, sentimentos - movimento de consciência espontâneo, versátil, volúvel e volátil, que arrasta, muitas vezes com violência, a canoa da imaginação até distantes e estranhas margens. Surgem também as primeiras pessoas, presenças vultuosas, emitindo sons e significados mecânicos - esboço de alguma humanidade.

Uma vez de pé, e em plena atividade, perde-se de vista, por muito tempo, o fio de consciência que sozinho se aventura no imenso mar das sensações. Vez ou outra, encontra alguma ilha no caminho, procura sinais de vida, deleita-se quando encontra correspondência, mas de novo é levada pelas ondas. Metáforas. Como se os sentimentos fossem partículas de gás brilhante que tendem a se expandir infinitamente mas encontram as paredes do corpo: efluvescência.

Mais um dia na vida terá se passado, mais um oceano de sentimentos terá se perdido, ou se transformado em poeira invisível, inexplicável, enquanto tudo continuará funcionando fria e perfeitamente: nada terá sido, nem compreendido, nem comunicado.

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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Nirvana*

Ou, A Flor Mais Bonita do Mundo


"Quanta experiência se pôde acumular? Quanto do mundo e de si mesmo foi possível aprender?" Eram pensamentos que existiam fora de seu corpo. Naquele momento, o que o preenchia não era senão uma torrente de sentimentos, como ondas de luz a percorrer toda sua extensão interior. Seu olhar não era de felicidade. Uma expressão de lânguida e comovida tristeza estava prestes a precipitar em sua face. "Tanto amor..."

A luz do dia invadia a casa e sua luminosidade ofuscante abraçava e envolvia todos os objetos que ali haviam. De pé, erguendo diante dos seus olhos uma fotografia presa entre os dedos, o universo aos poucos assumia a consistência de um silêncio infinito - "Tanto amor..." - do qual emergia, crescente, um coral uníssono, que lentamente ia dissolvendo todas as impressões e lembranças enraizadas naquele olhar imóvel. Tudo transformara-se em um movimento estático, vibração contínua, onde palavras não passariam de uma descrição vazia sobre o nada.

"Qual é a matéria do sentimento? O que acontece quando tudo acaba? Restará um último sorriso?" Mas o corpo continuava ali. As mãos continuavam ali. Os olhos permaneciam fixos, imperturbáveis, como a contemplar a flor mais linda do mundo. Quanto tempo terá se passado, na medida em que essa imagem se torna cada vez mais distante, mais calma e mais difusa, até se perder completamente no azul?

Afinal, quais terão sido as sensações extremas desta experiência única? O que dela irá permanecer? São perguntas que, como naquele momento, nunca terão existido; e que nunca poderão ser compreendidas, como todo o sentimento disperso no universo.

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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Tom Noturno*

A noite tem uma hora morta, e a vida que nela se esconde, jaz nos corpos que se entrevem através da misteriosa névoa de nicotina.

Passeando os olhos pelo salão, ao ritmo da música conduzida por mãos maliciosas, não é difícil deparar-se com olhares que prometem o que nunca cumprirão; o movimento de línguas sobre os lábios pronunciam imperceptíveis palavras e desejos obscenos, que só o pensamento mais honesto e altruísta saberá interpretar - afinal, é preciso levar felicidade e prazer a quem os pedem.

Do lado de fora, as ruas silenciosas espreitam com suas luzes amarelas. As conversas que se misturam ao som dos instrumentos trazem em suas letras sempre a variação de uma paixão, a fim de seduzir e encontrar a satisfação. Todos que estão neste salão o sabem, e por isso dançam com prazer, erguem seus drinks no balcão, tocam suas pernas sob a mesa e insinuam a volúpia em cada um de seus movimentos.

Mas nenhuma promessa feita em uma dessas horas mortas pode ser, de fato, esquecida. A não ser que os corpos apaguem o fogo que o olhar, com sua intensidade, fez surgir. Só assim haverá sentido e harmonia no salão, que em sua penumbra, zela com alegria os corpos e promessas feitas, na noite que termina em jazz.

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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A Padroeira de Massaranduba*

Numa bela tarde, cinco jovens resolvem pegar o carro e procurar uma paisagem agradável e bom mirante para ver o pôr do sol.

A pista era estreita, mas também não era das mais esburacadas, cortando vales com vilarejos lá embaixo, por onde rios corriam feito crianças a brincar em volta das casas. O carro pegou a saída para uma estrada de terra, que alguns metros mais além tornou-se intransponível: diversas crateras e um lago bem acomodado no meio dela. Não era mais possível chegar a grande pedra no alto dos vales (como premio de consolação, foi oferecido um curioso treinamento de bois, cavalos e vacas para competição).

De volta a via principal, por imperativo da inércia que pairava sobre o grupo em movimento, ficou decidido seguir sem saber exatamente aonde se ia dar. Ninguém reparou na pequena placa que mostrava o nome da cidade.

Depois de quase recuar frente a outro obstáculo, desta vez em forma de policial, como que cobrando esse descaso com o próprio destino, mais alguns quilômetros por entre os amistosos campos de vales e rios levaram ao fortuito município de Massaranduba.

Um movimento comportado murmurava pela cidade, algumas pessoas vestiam uma camisa igual, muitas de branco, o palanque testava o som e um imenso escorregador inflável erguia-se na praça: era a festa da padroeira. Mas como ela provavelmente só apareceria mais tarde, o tempo foi suficiente apenas para conhecer o simpático senhor dono do boteco.

Na estrada de volta, uma extensa fileira de luzes de carros parados e fogos de artifício anunciavam a aparição da santa. Pouco tempo depois, estavam novamente à cidade de onde partiram.

Assim foi a breve viagem. O final dela não leva, certamente, a uma elevada e edificante conclusão, embora conte com a aparição de uma santa; tampouco ao alto de uma colina onde se assistiria ao pôr do sol - a não ser que sejam válidas as modéstas alturas de um escorregador inflável, com vista privilegiada para um palanque -, mas talvez, como premio de consolação, seja o bastante para desfrutar de um rápido momento de distração, em meio a bois, vacas, vales e rios.

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