domingo, 10 de janeiro de 2010

Jeremíades*

Jeremíades, também conhecido pelo vulgo "Jera", cursou todo o ensino básico e acabou virando catador de latinhas  e entulhos em geral. Nunca teve gosto pela bebida, mas sempre viveu em conflito dentro de casa, por conta de sua "loucura" aparentemente congênita. Não se entendia com pais, irmãos e professores. Preferia perambular sozinho pelas ruas, terrenos baldios, riachos, matagais.

Fugiu de casa quando já era quase adulto. Pegou uma briga de faca com um fulano que maltratava dois burros de carroça. Saiu ferido mas deixou furado o destratante que judiava dos bichos: "Pra que fazer isso com os pobres, seu animal?!"

Viajou por estradinhas e cidadezinhas recolhendo o que poderia ter algum valor e trocando para ter o que comer. Conforme ia se quedando nos lugares, arrumava companhia, mas nunca amigo gente, "tudo uns animais". Criava cinco cachorros, a sua família.

Até que um dia Jera achou um sitiozinho ameno, bem abandonado no meio do interior, e resolveu parar um pouco. Estava cansado de tanta andança por aí - os burros mereciam repousar. Juntou tábuas e papelão, improvisou uma vidinha cotidiana com os bichos e se estabeleceu quieto por ali. Sofreu calado e mudo quando tempos depois adoeceu e morreu um dos seus burrinhos, que atendia pelo nome de Pedrez. Cachorros não faltavam.

Ficou tanto tempo sozinho que, sem preceber, foi murchando sem sofrimento em sua solidão.

Morreu quase velho. Dava pra ver que os bichos sentiram a falta dele. Mas depois foram se perdendo pelos terrenos do mundo. Só o outro burrinho, que atendia pelo nome de Frederico, continuou pastando por ali. Até também murchar de solidão.

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sorria*

Sorria agora, pois em menos de duzentos anos você nunca terá existido. Seus tataranetos não saberão quem foi você. Não restará nenhuma grande obra tua. Nenhum retrato. Nenhuma lápide com teu nome. O tempo terá apagado todos os teus vestígios na terra. Sua vida terá se extinguído junto de tua memória - tudo muito efêmero.

Mas o que terá acontecido com tua nobre alma? A qual lugar maravilhoso ela o terá levado? Como é a vista do alto céu azul? És mais feliz vivendo por cima das nuvens? O que restou do teu corpo, da tua consciência ou de tua personalidade? Conseguistes mantê-la intacta agora que teu ego vive para sempre? Ou será mais uma inocente reencarnação? Viestes em forma de gente, tornasses, enfim, um grande rei, ou nascesses, de novo como outro inseto?

Sorria agora, que posso ver em teu sorriso toda a certeza de quem neste momento está vivo, todo o orgulho de quem existe e faz tanta diferença neste vasto mundo repleto de milhões de outras existências únicas como é a tua. Sorria, pois quando sorri teus olhos estão fechados para o passado antes de ti, tão infinito e tão distante, que no escuro da tua ignorância só a luz de um pequeno futuro tem força para brilhar. Sorria, pois serás tão ignóbil quanto este passado e teu sorriso, um alegre fóssil. Sorria, pois neste teu sorriso está o emblema da soberana natureza, que nunca dá por si; sorria pois quem sorri através de ti é o tempo que tudo destrói, que leva e faz passar, sem nunca recusar a felicidade a quem ignora seu trabalho de apagar, refazer e desfazer mundos, pessoas e certezas, para depois com indiferença soprar o pó das coisas que um dia já foram, e já sorriram.

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A Casa*




           A CASA, SE CONSTRÓI
           E NELA SE CRIA
           VIDA.



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sábado, 19 de dezembro de 2009

A Morte da Bezerra*

Cá estou eu, mais uma vez, pensando na morte da bezerra. Lembro-me de ser criança, estar distraído, com o olhar perdido em algum vazio, e me perguntarem "o que foi, tá pensando na morte da bezerra?"

Hoje em dia, se me perguntassem "o que é filosofia?", eu responderia, "é a morte da bezerra." "O que é melancolia? É a morte da bezerra."

Seria também o caso de aproveitar o ensejo para investigar as explicações sócioculturais, históricas, deste patrimônio mitológico brasileiro, mas para que todo este trabalho, se afinal agora é tarde e a bezerra já está morta, melhor mesmo é deixar a coitada quieta.

Fiquemos nós com a dúvida, sem saber da onde vem essa expressão tão enigmática e familiar. Será um símbolo ancestral do vazio universal? Um estado de alfa involuntário? Stand by do cérebro? Simples distração?  Vai saber. Continuemos carregando este cadáver amigo, companheiro, que, ao longo da vida, apodrece serenamente em nossa consciência.

Mas caso o leitor nunca tenha pensado na morte da bezerra, não há com que se preocupar, este animal morto não irá mudar nada em sua vida, não trará mais sorte nem fortuna, pois não passa de mais um folclore inútil, coisa de quem escreve, de quem não tem mais nada pra fazer.

Coisa de quem vai chegar na velhice e dizer, satisfeito: "Passei a vida inteira pensando na morte da bezerra."

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Burocracia É Deus*

Ó, deus da burocracia
me manda um anjo
com certificado de divindade
comprovante de residência no céu
e recibo de oferendas recebidas.

Ó, deus da burocracia
me manda este anjo
para ser meu fiador
e permitir que eu siga
por suas segundas vias tortas.

Despacha um santo com urgência
para resolver este meu ofício
se possível até o dia trinta
não abandona esta humilde pessoa física
Ó, grande deus da burocracia.

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Incômodo*

Ponham as rédeas nos sentimentos
digam para onde devem ir
inventem a vacina contra o desejo
a pílula da conformidade
a lei de como amar.

Já viram  deus,
mas nunca a liberdade
animal selvagem
mostrando os dentes.

Há de ser regra a constância
não mais a contradição
daí então não haverá mais humano
imperfeito, falho, vacilante
meio divino, meio animal
boca, sexo, estômago
consciência e carne.

Não haverá mais conflito
nem vida, nem paixão
apenas mundo, controle
apenas prisão.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Histórinha de Dormir*

Era uma vez, lá em Barbacena, um menino bem magrinho, que vendia sorvete na praia.

Era pequeno e já trabalhava. Passava o dia inteiro vendendo sorvete.

E enquanto vendia, aprendia. Sua vida ia se tornando histórinhas de dormir.

Depois trabalhou também numa fábrica de banana, descascando banana. Mas queria mesmo era ser jogador de futebol.

Tinha vezes em que o pai dele demorava mais e quando chegava em casa era gritando, brigando, falando enrolado. O menino que já era calado, se entristecia.

O menino sabia que a vida era difícil.

E quando cresceu, ensinou todas estas histórias.

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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Enfezado*

Levantou com o pé esquerdo. Era uma terça-feira e ontem havia sido preciso fazer hora extra (não remunerada) no trabalho, em mais uma daquelas reuniões cheias de clichês administrativos e muitas cobranças (detalhe: em plena segunda-feira). Sem contar que o salário ainda não tinha caido e as contas já estavam todas atrasadas.

Não bastasse tudo isso, o despertador estava meio doido, acordou em cima da hora e teve que pegar um trânsito absurdo para chegar no trabalho e encontrar o chefe com a cara daquele tamanho: "É foda, viu!" Mal deu tempo de lavar o rosto e realizar as necessidades matinais - e o vaso ainda fez o favor de entupir. Deixou pra ver isso depois, quando chegasse.

No trabalho, aquele mesmo aborrecimento de sempre, nada ainda do salário cair, a impressora dando problema e a internet ficou pelo menos uma hora sem dar sinal de vida; atrasou o documento que precisava mandar e por isso a firma provavelmente ia ter que pagar uma multa. Mais reclamações.

Final de tarde, hora de voltar pra casa, justo quando costuma desabar uma tempestade tropical e terminar de comprometer o trânsito que já é monstruoso nesse horário.

Chegou três horas depois. Não tinha nada para comer; tinha esquecido de comprar alguma coisa. Um banho: um banho era a salvação. Mas antes precisava "aliviar a consciência" no vaso; quando abre a tampa tem a triste e furiosa lembrança que aquela porcaria está com problema. Tenta a descarga, o balde, o desentupidor: nada. Só piora ainda mais o cenário.

Depois de  inúmeras tentativas, que acabaram de esgotar sua paciência, com repugnância, somada à indignação, à revolta e a todas as coisas que vinha passando, começou a remover o conteúdo com as próprias mãos, enquanto lágrimas de ódio brotavam de suas olheiras, os olhos vidrados, os dentes cerrados e os movimentos cada vez mais convulsos, até que não suportou mais a pressão interna de seus nervos e explodiu em golpes contra o vaso, quebrando a louça, seus dedos, suas mãos, fazendo cortes profundos no braço, até cair e bater a cabeça em uma ponta providencial da privada espatifada, que viria pôr fim a todo aquele sofrimento, àquela vida de merda.

Na medida em que seu sangue e sua consciência iam se esvaindo em meio à imundice do banheiro, sua cólera e seus problemas também iam sendo esquecidos. Tudo o que sentia era uma sonolência boa e tranquíla que aumentava conforme era abraçado pelo frio dos azuleijos - pelo frio da morte, que se aproximava calmamente.

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Quinto Dia Útil*

Não tem mistério, só complicação: acordou, trabalhou, comeu, dormiu. Eis a rotina diária de todos os dias para um cidadão minimamente assalariado. Pouco encantamento, muito esforço e ainda menos tempo para fazer qualquer outra coisa, do tipo pensar, viver, viajar...

Mas nem tudo é martírio. A felicidade é do tamanho de um crediário e tem o sabor e a simplicidade de um pão com ovo. E esta felicidade tem uma data mais ou menos certa para acontecer: o maravilhoso, o sagrado, o quinto dia útil! Não há evento mais aguardado na vida do humilde proletariado. Quando enfim chega essa época de brevíssima fartura, aí então é um regozijo só - melhor do que andar pelado em casa -, até que a fartura novamente dê lugar às faturas - o que geralmente acontece antes mesmo do décimo dia útil - e tudo retome seu ritmo usual de recessão, apertos e privações, o que, na visão de um devoto trabalhador, não são senão  necessárias provações a enfrentar até que aconteça a próxima virada de mês, e com ela chegue novamente o santo dia de mais um pagamento.

O jeito é trabalhar. É o que há de mais digno a fazer. O que não dá pra ter agora, ou parcela ou deixa pra depois, porque tudo, um dia, vai melhorar. Com as bênçãos do capitalismo, é só ter fé que tudo vai dar certo.

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Nuvens*

Onde eu nasci era qause todo dia assim, o céu cheio de nuvens: nublado. Tinha vezes que eu queria muito ir na praia (tinha visita mais que importante, do amor), mas o céu estava sempre muito fechado, com cara de chuva, e a água muito gelada.

Quando vejo o céu assim, tão cheio de nuvens, tenho saudades, porque onde eu nasci era assim.

Depois conheci céus diferentes, sem nuvens, com tempo aberto a maior parte do tempo, achei bonito e gostei da ideia de ter sol o tempo inteiro; dava pra ir na praia todo dia.

Mas com muito sol faz muito calor e muita claridade dá sono; e mesmo com muito sol não dá pra ir na praia todo dia: são muitas coisas, às vezes até mais que o amor, mais que a praia.

Bom mesmo era ter um pouco de céu assim, cheio de nuvens, pra ficar emocionado lembrando, amoadinho, sentindo falta. E outro pouco de céu aberto, com sol queimando, a gente ardendo, mergulhando.

Tudo isso só de olhar pro céu. E ver as nuvens...
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